Mar Piquer Martínez nos revela como a PsicoNED aproxima a neuroreabilitação e a estimulação cognitiva infantil em zonas de recursos reduzidos em Zanzibar.
Introdução
A psicologia é um pilar fundamental no bem‑estar e na saúde pública. Suas contribuições à sociedade abrangem desde a promoção da saúde até o tratamento de transtornos mentais, o desenvolvimento de políticas públicas e o fomento de uma sociedade mais inclusiva e equitativa por meio da pesquisa e da intervenção comunitária e clínica. Em um sistema de saúde integral, a psicologia permite compreender e acompanhar as dimensões emocionais, cognitivas e sociais que influenciam a saúde física e mental das pessoas.
Desenvolvimento da psicologia e da neuropsicologia
Na Espanha, a psicologia começou a consolidar‑se como disciplina a partir dos anos setenta, com a criação de faculdades específicas e, mais tarde, com a inclusão da figura do Psicólogo Interno Residente (PIR) em 1993 como via de especialização clínica. A neuropsicologia, por sua vez, experimentou um desenvolvimento notável em hospitais e centros de reabilitação, respondendo às necessidades de pessoas com lesão cerebral, demências ou transtornos do neurodesenvolvimento. Atualmente, estima‑se que na Espanha haja aproximadamente 5.580 psicólogos por cada 100 milhões de pessoas.
Desenvolvimento da psicologia e da neuropsicologia em ambientes vulneráveis
Se estes números já parecem modestos, os relatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para países de baixa renda como a Tanzânia são alarmantes: apenas 5 psicólogos por cada 100 milhões de pessoas, o equivalente à população da Espanha e da Itália.
Grande parte da África subsaariana experimentou um desenvolvimento muito mais tardio e desigual da psicologia como disciplina acadêmica e profissional. A formação universitária em psicologia expandiu‑se principalmente a partir dos anos 90 e 2000, com forte influência de modelos ocidentais. Hoje os avanços são consideráveis, com programas de pós‑graduação em países como Tanzânia, Nigéria, África do Sul ou Gana, mas os números continuam muito limitados. A neuropsicologia, devido à sua alta especialização, mal começa a se estabelecer, e está geralmente vinculada a projetos de pesquisa ou programas‑piloto em hospitais urbanos.
As consequências de não investir no desenvolvimento da psicologia — e da saúde mental em geral — são especialmente graves para as populações mais vulneráveis. Na infância, a falta de diagnóstico e intervenção precoce em transtornos emocionais, de aprendizagem ou do neurodesenvolvimento multiplica o risco de fracasso escolar, exclusão social e cronificação do sofrimento na vida adulta. Além disso, a ausência de programas de neuropsicologia em ambientes escolares e de saúde privam muitas crianças de oportunidades de reabilitação e de um desenvolvimento pleno de suas capacidades.

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Ambientes vulneráveis e desenvolvimento infantil: riscos e desigualdades
Embora os avanços acadêmicos sejam significativos, em países de baixa renda as lacunas em saúde mental continuam profundas. Ali, as prioridades urgentes (alimentação, habitação, acesso à água potável ou atenção médica básica) fazem com que a saúde mental fique relegada. No entanto, sabemos que o desenvolvimento psicológico e neurológico é altamente sensível ao ambiente, e que a pobreza não só limita o acesso a serviços, como também molda o cérebro desde os primeiros dias de vida.
A ciência tem sido clara nas últimas décadas: a pobreza tem um impacto direto sobre o desenvolvimento cerebral infantil. Estudos como os de Hackman et al. (2010) e Schneider et al. (2016) mostram como a desnutrição, o estresse crônico, a falta de estimulação e o acesso limitado à educação afetam regiões-chave do cérebro responsáveis por funções executivas, linguagem, memória e regulação emocional. Essas limitações condicionam o futuro de crianças em termos de aprendizagem, autonomia e integração social.
Quando a esse contexto se soma uma condição do neurodesenvolvimento como hidrocefalia ou espinha bífida, surge uma dupla vulnerabilidade que compromete ainda mais a qualidade de vida. Esta ideia é especialmente importante para compreender a realidade que enfrenta o continente africano, onde se estima que mais de 200.000 crianças por ano nascerão com algum defeito do tubo neural ou desenvolverão hidrocefalia.
A evidência científica indica que intervir nos primeiros anos de vida pode marcar uma diferença significativa. Neville et al. (2013) evidenciam que intervenções precoces, aplicadas com os recursos adequados, conseguem mitigar os efeitos das desigualdades no desenvolvimento. De forma complementar, Weisleder et al. (2016) e Hammond & Tsao (2021) demonstram que mesmo em condições de pobreza extrema, a estimulação cognitiva estruturada melhora as habilidades emocionais e executivas. Esses achados ressaltam a urgência de implementar programas de atenção precoce que sejam acessíveis, sustentáveis e culturalmente adaptados.
É nesse contexto que o trabalho da Fundación NED ganha especial relevância. Em Zanzibar, PsicoNED procura exatamente aproximar os serviços psicológicos e neuropsicológicos de quem mais necessita, com uma abordagem culturalmente adaptada e sustentável, levando em conta as necessidades reais do ambiente.
A realidade local em Unguja e Pemba
Zanzibar, com suas duas ilhas principais -Unguja e Pemba-, reflete de forma clara as desigualdades em saúde que persistem na África subsaariana. Embora o sistema nacional da Tanzânia garanta a gratuidade da atenção básica, a pobreza estrutural e a escassez de pessoal de saúde especializado condicionam o acesso real aos serviços. Pemba, a ilha ao norte do arquipélago de Zanzibar, enfrenta desafios socioeconômicos importantes: até metade da população vive em condições de pobreza, com acesso limitado à educação, saúde e infraestrutura básica, o que a coloca numa situação de vulnerabilidade (World Bank, 2017).
No âmbito da saúde mental e do neurodesenvolvimento, as carências em Zanzibar são especialmente significativas. Unguja conta com alguns serviços hospitalares de referência e com a presença de organizações como a Fundación NED que oferecem atenção psicológica e neuropsicológica. No entanto, esses recursos continuam sendo insuficientes face à magnitude da demanda. A situação em Pemba é ainda mais crítica, pois praticamente não existem serviços especializados em psicologia, de modo que as famílias dependem de deslocamentos caros para Unguja ou Dar es Salaam, ou de apoios informais dentro da comunidade.
Diferenças na assistência psicológica e neuropsicológica segundo o local de nascimento
A disponibilidade de serviços de atenção especializada determinará em grande medida a evolução, recuperação e qualidade de vida de uma criança com hidrocefalia e espinha bífida, ou de forma mais geral, com uma condição do neurodesenvolvimento.
Na tabela a seguir podemos observar como um mesmo caso seguiria um percurso muito distinto dependendo se nasceu na Espanha, em Unguja ou em Pemba, o que permite visualizar de forma clara as consequências da desigualdade no acesso a serviços de saúde:
| Espanha | Unguja | Pemba | |
|---|---|---|---|
| Atendimento hospitalar inicial | Cirurgia relativamente precoce, cuidados pós‑operatórios, acompanhamento neurológico. | Cirurgia possível no NED Institute Mnazi Mmoja ou noutros centros de referência, embora com atrasos, dependência de apoio externo, possíveis complicações por falta de acompanhamento especializado. | Muito limitado, não há hospitais locais com neurocirurgia pediátrica. A família teria de deslocar‑se para Unguja ou mais longe, com barreiras de custo, transporte e logística. |
| Neuropsicologia e reabilitação | Intervenção precoce: acesso a neuropsicólogos, terapias físicas, ocupacionais, fonoaudiologia. Acompanhamento multidisciplinar. | Parcial: projetos como House of Hope fornecem terapia física, avaliação e intervenção neuropsicológica. | Praticamente inexistente. Nenhuma infraestrutura local específica. A intervenção precoce é difícil ou tardia. |
| Atendimento educacional | Direito a adaptações curriculares, salas de apoio, professores especializados, programas de atendimento precoce. | Alta probabilidade de exclusão escolar precoce, escolas que não conseguem incorporar apoios, poucas opções de transporte, falta de consciência/instrução específica entre o corpo docente. | Alta probabilidade de exclusão escolar precoce, escolas que não conseguem incorporar apoios, poucas opções de transporte, falta de consciência/instrução específica entre o corpo docente. |
| Apoio familiar/social | Informação, orientação psicológica, auxílios sociais, associações de apoio às famílias, coordenação com serviços sociais; em muitos casos cobertura de saúde e benefícios. | Apoio estatal muito limitado; algumas ONGs locais prestam orientação; a família assume encargos económicos, físicos e emocionais importantes. | Apoio institucional praticamente nulo; isolamento social e falta de reconhecimento da deficiência. |
| Coordenação de serviços | Equipas multidisciplinares (neurocirurgia, pediatria, reabilitação, neuropsicologia, serviço social) com protocolos definidos em muitas regiões; acompanhamento sistemático. | Coordenação informal ou pontual; falta de protocolos intersetoriais claros; dependência de financiamento externo e projetos específicos. | Muito pouca coordenação; serviços não integrados; ausência de protocolos ou itinerários de cuidados claros; grande fragmentação se é que existem apoios. |
Fundação NED e PsicoNED: aproximando a neuropsicologia de quem mais precisa
Este exemplo comparativo evidencia as enormes lacunas no acesso a serviços especializados. Por isso, a Fundação NED trabalha em Zanzíbar desde 2008, com o objetivo de garantir o acesso a serviços neurocirúrgicos básicos e formar profissionais locais.
Em 2021 demos um passo importante com a abertura da House of Hope, um espaço que oferece alojamento e sustento a crianças com hidrocefalia e espinha bífida e às suas famílias, que precisam se deslocar para Unguja para receber atendimento especializado e se encontram em situações de extrema vulnerabilidade. Neste centro também são oferecidos fisioterapia e, desde 2023, um serviço de atendimento psicológico integral. Desde o projeto PsicoNED, as crianças e suas famílias recebem apoio por meio de sessões individuais de neurorreabilitação, grupos de apoio, formação dirigida a profissionais e estudantes locais, bem como acompanhamento domiciliar e escolar, assegurando um acompanhamento completo além do hospital.
Há alguns anos também levamos nosso trabalho a Pemba, realizando missões de neurocirurgia e ginecologia, e explorando como implementar o PsicoNED na ilha. Durante essas visitas, pudemos conhecer em primeira mão a realidade das famílias visitando seus lares e realizar as primeiras abordagens de avaliação psicológica. Isso nos ajuda a planejar intervenções futuras de forma mais eficaz e adaptada ao contexto.
NeuronUP para a estimulação cognitiva em áreas de poucos recursos
Nosso objetivo agora é recolher informações sobre as famílias, realizar avaliações do neurodesenvolvimento das crianças e desenhar intervenções individualizadas, assim como capacitar pessoas locais para que possam aplicar técnicas de estimulação cognitiva e neurorreabilitação. Nesse processo, a colaboração com NeuronUP é fundamental, pois permite formar pessoas sem experiência prévia utilizando materiais adaptados ao suaíli, o que ainda torna as intervenções mais acessíveis e culturalmente adaptadas.
Conclusão: rumo à neurorreabilitação em áreas de poucos recursos
Os desafios não são poucos: não há infraestrutura fixa, o pessoal especializado é escasso, e os serviços e associações locais funcionam de forma fragmentada. Mas é precisamente essa situação que nos impulsiona a continuar.
Nada disso seria possível sem a colaboração de voluntários que dedicam seu tempo e esforço em missões de cooperação, de parceiros que contribuem regularmente ou de quem confia em nós por meio de doações pontuais. Graças a eles podemos continuar capacitando pessoal local e desenvolvendo serviços especializados, como a neuropsicologia, de modo que no futuro sejam eles que liderem e sustentem seus próprios serviços.
Nosso objetivo é que, com o tempo, o atendimento básico e especializado deixe de ser um luxo e esteja ao alcance de todas as crianças que dele precisem, independentemente do lugar onde nasçam, reduzindo assim as enormes diferenças que hoje refletem as estatísticas.
Bibliografia
- Cairós González, M. E., Montagud Fogués, J. V., & García-Rubio, M. J. (2024, 15 de novembro). Milhões de pessoas carecem de atenção neuropsicológica: assim tentamos levá-la a Zanzíbar. El País, Planeta Futuro. https://elpais.com/planeta-futuro/2024-11-15/millones-de-personas-carecen-de-atencion-neuropsicologica-asi-intentamos-llevarla-a-zanzibar.html
- Dunning, D. L. (2013). Does working memory training lead to generalized improvements in children with low working memory? Developmental Science, 16(6), 915–925. https://doi.org/10.1111/desc.12068
- Hackman, D., Farah, M. & Meaney, M. Socioeconomic status and the brain: mechanistic insights from human and animal research. Nat Rev Neurosci 11, 651–659 (2010). https://doi.org/10.1038/nrn2897
- Hentges, R. F., Madigan, S., Tough, S., McDonald, S., & Graham, S. A. (2021). Maternal depressive symptoms and language development: The moderating role of child temperament. Developmental Psychology, 57(6), 863–875. https://doi.org/10.1037/dev0001184
- Schneider, M., Beeres, K., Coban, L., Merz, S., Schmidt, S. S., Stricker, J., & De Smedt, B. (2016). Associations of non‐symbolic and symbolic numerical magnitude processing with mathematical competence: A meta‐analysis. Developmental Science, 20(3), e12372. https://doi.org/10.1111/desc.12372
- Weisleder A, Fernald A. Talking to children matters: early language experience strengthens processing and builds vocabulary. Psychol Sci. 2013 Nov 1;24(11):2143-52. doi: 10.1177/0956797613488145. Epub 2013 Sep 10. PMID: 24022649; PMCID: PMC5510534.
- World Bank. (2017, 3 de novembro). Zanzibar sees a slight decline in poverty except for Pemba [Press release]. World Bank. https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2017/11/03/zanzibar-sees-a-slight-decline-in-poverty-except-for-pemba






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