A neuropsicóloga Ana Laura Utrilla Lack analisa a neurociência da dor crônica, a sensibilização central e como a terapia de reversão da dor (TRD) retreina o cérebro com sucesso.
Resumo executivo com os pontos-chave deste artigo:
1. O que é a dor crônica neuroplástica, por que ela persiste e qual é seu impacto emocional, cognitivo e social.
2. Quais são as bases neurocientíficas da dor crônica.
3. O que é e como funciona a terapia de reversão da dor (TRD).
4. Como aplicar a terapia de reversão da dor (TRD) a partir da neuropsicologia.
Introdução
Em 2023, cerca de uma em cada quatro pessoas adultas (24,3%) declarou ter tido dor crônica nos últimos três meses, e cerca de 8,5% viveu uma dor tão persistente que limitou significativamente sua vida diária ou seu trabalho (Lucas & Sohi, 2024).
Todas as pessoas, em algum momento da vida, já experimentaram algum tipo de dor. A dor atua como um sinal de alerta que dirige nossa atenção para a parte do corpo que requer cuidado. Também nos ajuda a frear comportamentos que, se repetidos, poderiam provocar dano. O problema aparece quando esse “alarme” se desajusta. Nesses casos, o organismo permanece em um estado de alerta constante, mesmo que o perigo real já não esteja presente, tendo como resultado dor crônica.
O que é a dor crônica e por que persiste mesmo sem lesão física?
Segundo a International Association for the Study of Pain (IASP, 2020), a dor é uma experiência desagradável associada ou semelhante à que acompanha um dano tecidual real ou potencial. No entanto, a dor não é apenas um sinal do corpo ou uma resposta direta a um estímulo físico; é uma construção complexa do cérebro, que envolve distintos componentes, entre eles:
- Emocionais, pois pode vir acompanhada de medo, angústia ou frustração.
- Cognitivos, como interpretações, expectativas e memórias associadas à dor.
Nesse sentido, a dor funciona como um sinal de proteção e não necessariamente como um marcador direto do dano.
Dor aguda ou dor crônica?
| Dor aguda | Dor crônica |
|---|---|
| Surge após uma lesão, inflamação ou algum tipo de dano tecidual. | Aquele que persiste por mais de três meses2. Pode manter-se mesmo quando o tecido já cicatrizou e não existe lesão estrutural ativa3. |
| A função da dor é protetora, ao favorecer comportamentos de autocuidado1. | As mudanças relacionam-se com o sistema nervoso central, já que existe um aprendizado da dor, onde a neuroplasticidade atua de maneira mal-adaptativa, consolidando vias de dor hiperativas1. |
| Pode-se falar de dor neuroplástica ou nociplástica2, na qual o cérebro atua gerando a experiência dolorosa sem um sinal de dano atual nos tecidos. |
Impacto emocional, cognitivo e social da dor crônica
A esfera emocional encontra-se intimamente ligada à dor crônica e pode ocorrer em ambos os sentidos: a dor impacta negativamente o estado emocional e, por sua vez, as emoções influenciam a experiência da dor. Por isso, compreender o impacto emocional é de grande relevância, tanto na forma como a pessoa aprende a viver com dor quanto no processo de intervenção orientado a desaprender a senti-la da mesma maneira.
Quando a dor persiste por mais de três meses, é esperável que tenha um impacto na qualidade de vida e nas atividades cotidianas, o que repercute diretamente na emoção e na autoestima de quem a sofre (Bair et al., 2003). A dor crônica não dói apenas no corpo, também desgasta emocionalmente. Entre os estados emocionais que podem ser observados com maior frequência estão os seguintes:
| Impacto da dor crônica | Descrição | Consequências |
|---|---|---|
| Ansiedade antecipatória | Surge ao prever situações, lugares, movimentos ou lembranças que poderiam desencadear a dor. | Gera comportamentos evasivos, medo persistente e mantém o organismo em um estado de alerta constante. |
| Irritabilidade e baixa tolerância à frustração | Estado prolongado de alerta e irritabilidade associados à persistência do sintoma doloroso. | Reações emocionais intensas ou desbordes diante de situações que anteriormente eram toleráveis. |
| Frustração e impotência | Vivência de “fazer de tudo e não melhorar” diante de intervenções convencionais que não surtem efeito pela ausência de um dano tecidual claro. | Busca incessante de tratamentos (alopáticos e alternativos) com alívios apenas temporários, reforçando o desânimo. |
| Tristeza ou desânimo persistente | Sentimentos de desesperança ao acreditar que não existe saída para a dor após tentativas fracassadas de melhora. | Desenvolvimento de sintomas depressivos, redução de atividades prazerosas e impacto negativo nas relações sociais e laborais. |
| Hipervigilância interoceptiva | O sistema atencional é treinado para realizar um monitoramento contínuo do corpo em busca de sinais de ameaça. | Interpretação enviesada de estímulos neutros como alarmes e dificuldades severas para se concentrar na leitura ou em conversas. |
| Memória corporal aprendida | O cérebro estabelece associações e condicionamentos entre contextos específicos e o aparecimento da dor. | Ativação da dor mesmo sem dano tecidual e generalização de comportamentos de evitação diante de situações supostamente perigosas. |
| Pensamentos catastróficos | Crenças de que o corpo está “piorando” ou de que a dor deteriorará progressivamente a vida. | Aumento da ativação das redes cerebrais de ameaça e reforço dos processos de sensibilização central. |
| Rigidez cognitiva e ruminação | Consumo excessivo de recursos das funções executivas centrado no mal-estar. | Limitação da flexibilidade mental e dificuldade para reorientar o foco atencional para outras experiências de vida. |
Bases neurocientíficas da dor crônica
Segundo o modelo da terapia de reversão da dor (TRD) ou Pain Reprocessing Therapy (PRT) na sigla em inglês, a dor crônica de tipo neuroplástico é explicada como uma resposta aprendida do sistema nervoso central, na qual o cérebro mantém ativas as vias da dor como um mecanismo de proteção, mesmo quando não existe dano tecidual atual que justifique tal sinal (Gordon & Alon, 2021).
Plasticidade neuronal e sensibilização central: como o cérebro “aprende” a sentir dor
A plasticidade neuronal é a capacidade do cérebro de se reorganizar e formar novas conexões sinápticas em função da experiência (Pascual-Leone et al., 2005). Cada aprendizado implica a ativação repetida de determinados circuitos neuronais; quanto mais são utilizados, mais eficientes e automáticos se tornam, fenômeno descrito desde o princípio hebbiano da aprendizagem.
Esse mesmo princípio opera na dor crônica. Em muitos casos, a dor inicia a partir de uma lesão ou processo inflamatório real. No entanto, quando essa experiência dolorosa é acompanhada por estados emocionais intensos —como medo, angústia ou hipervigilância—, os circuitos neuronais associados à dor se ativam de forma repetida. Embora o tecido corporal tenha cicatrizado, o circuito da dor pode ficar “hipertreinado”, tornando-se mais reativo e fácil de ativar, inclusive de maneira automática.
Isto não implica que a dor seja imaginária. A experiência dolorosa é real, mas sua origem já não se encontra na periferia corporal, e sim na ativação de redes cerebrais relacionadas com a detecção de ameaça, a antecipação e a resposta ao perigo.
Nesse contexto fala-se de sensibilização central, um fenômeno pelo qual o sistema nervoso central se torna hipersensível, interpretando sinais corporais neutros ou inofensivos como dolorosos. Atividades cotidianas que não implicam dano tecidual —como escrever no computador, caminhar distâncias curtas ou realizar movimentos suaves— podem se tornar gatilhos de dor quando foram previamente associadas a mal-estar, estresse ou experiências aversivas.
Desse modo, estímulos que originalmente eram neutros podem adquirir valor de ameaça. O cérebro permanece em um “modo de alerta” sustentado, com os circuitos de medo, antecipação e proteção ativados de forma persistente, detectando perigo onde objetivamente já não existe.

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Redes neuronais implicadas e mudanças cognitivas associadas à dor
Não existe uma única região cerebral encarregada da dor; ela depende da ativação sustentada de múltiplas redes neuronais que processam o sinal sensorial, assim como sua interpretação cognitiva e seu significado emocional (Wager et al., 2013). No caso da dor neuroplástica, essas redes encontram-se hiperativas ou desreguladas, e por isso é possível sentir dor ainda que não haja propriamente dano periférico.
Entre as principais estruturas implicadas estão:
| Estrutura cerebral | Função na dor crônica | Impacto no paciente |
|---|---|---|
| Ínsula | Percepção aumentada de sinais internos. | Hipervigilância corporal constante. |
| Amígdala | Processamento do medo e da ameaça | Associação da dor com o perigo e a ansiedade. Evitação e antecipação negativa. |
| Córtex cingulado anterior (CCA) | Avaliação do sofrimento e relevância emocional atribuída. | Dor percebida como esgotante e emocionalmente desgastante. |
| Rede de saliência | Detecção de estímulos para a sobrevivência. | A dor desloca qualquer outro foco atencional. |
| Rede de modo padrão (default mode network) | Estados de autorreferência e ruminação. | Pensamentos repetitivos centrados na dor: “por que dói?”. |
Em conjunto, essas alterações na conectividade funcional do cérebro explicam por que a dor crônica não é unicamente uma experiência sensorial, mas um estado cerebral global que envolve percepção corporal, emoção, atenção, memória e significado pessoal. A persistência da dor é reforçada pela interação entre essas redes: a hipervigilância corporal, o medo da dor, a atenção enviesada para as sensações internas e as crenças negativas sobre o próprio corpo mantêm ativas as vias neuronais da dor, consolidando o aprendizado mal-adaptativo do sistema nervoso.
O que é a terapia de reversão da dor (TRD) segundo Alan Gordon
A terapia de reversão da dor (TRD) é uma abordagem desenvolvida por Alan Gordon (2021) junto com sua equipe, baseada em achados da neurociência da dor. Esse modelo parte da evidência de que, em muitos casos de dor crônica, a origem da dor não está em um dano estrutural ativo, e sim em uma interpretação equivocada do cérebro, que percebe certos sinais corporais como perigosos quando na realidade não o são.
Desde essa perspectiva, a dor neuroplástica se mantém porque o sistema nervoso central aprendeu a associar determinadas sensações, movimentos ou contextos à ameaça. A TRD busca modificar essa associação, promovendo uma mudança da interpretação de “perigo” para uma interpretação de “segurança”. Ou seja, o objetivo não é ignorar a dor, mas ajudar o cérebro a reconhecer que, na ausência de dano tecidual, o sinal doloroso não representa um risco real para o corpo.
Princípios da TRD e como ela funciona para retreinar o cérebro
Antes de iniciar um processo de terapia de reversão da dor, é fundamental realizar uma avaliação médica adequada que permita descartar causas estruturais ativas, inflamatórias, infecciosas ou neurológicas que expliquem a dor. A terapia de reversão da dor (TRD) não pretende substituir o atendimento médico, mas complementá-lo quando já se estabeleceu que não existe uma lesão ativa que justifique a persistência da dor.
Uma vez descartado o dano tecidual atual, a TRD baseia-se nos seguintes princípios:
- A dor pode ser real mesmo sem dano estrutural: a experiência de dor é genuína, mas sua origem pode estar em circuitos cerebrais aprendidos e sensibilizados.
- O cérebro aprende a sentir dor e também pode desaprendê-la: graças à plasticidade neuronal, os circuitos de ameaça associados à dor podem enfraquecer quando ela deixa de ser interpretada como perigo.
- A segurança é o elemento central da mudança: o retreinamento do cérebro ocorre quando a pessoa consegue experimentar sensações corporais a partir de um estado de calma e segurança, em vez de medo ou hipervigilância.
- A atenção e o significado atribuído à dor influenciam sua intensidade e persistência: trocar a narrativa interna de ameaça por uma de proteção segura favorece a desativação progressiva das redes da dor.
Dessa maneira, a TRD atua diretamente sobre os mecanismos de aprendizagem e sensibilização central, ajudando o sistema nervoso a recalibrar sua resposta diante de sensações corporais que antes eram vividas como perigosas.
Exercícios e técnicas práticas baseadas na TRD
A implementação da TRD apoia-se em um sólido processo de psicoeducação, cujo objetivo é que a pessoa compreenda a origem neuroplástica de sua dor. Como muitas pessoas com dor crônica buscam de maneira constante uma causa física ou estrutural que explique seu mal-estar, é fundamental ampliar essa compreensão e introduzir a possibilidade de que a dor esteja mediada pelo sistema nervoso central.
Por meio desse processo, a pessoa pode começar a observar sua dor com maior distanciamento e curiosidade:
- Em que contextos ela aparece? Surge sempre diante da mesma atividade ou varia conforme o estado emocional?
- A intensidade muda dependendo do ambiente, do estresse ou do acompanhamento? A localização da dor se modifica?
Essas perguntas permitem identificar padrões de ativação da dor que dificilmente se explicariam apenas por um dano tecidual. Reconhecer essas variações favorece a compreensão de que a dor neuroplástica não implica um perigo real para o corpo, e sim uma resposta aprendida do sistema nervoso.
Uma das técnicas centrais da TRD é o rastreamento somático (somatic tracking), descrito por Gordon (2021) como um processo que integra três componentes principais:
| Componente principal | Objetivo clínico | Técnica |
|---|---|---|
| Atenção plena (mindfulness) | Observação sem julgamento. | Aproximar-se da sensação com curiosidade, não com medo. |
| Reavaliação a partir da segurança | Mudar o significado da dor. | “Não há dano estrutural, meu corpo está seguro”. |
| Afeto positivo e tom gentil | Reduzir a carga emocional negativa. | Uso de linguagem compassiva, humor leve ou metáforas. |
Inicialmente, o rastreamento somático costuma ser guiado por um terapeuta capacitado em TRD, com o objetivo de que a pessoa aprenda a reproduzir a técnica de maneira autônoma em sua vida cotidiana. Por meio dessa prática repetida, o cérebro começa a associar as sensações corporais a estados de calma e segurança, favorecendo o enfraquecimento progressivo dos circuitos da dor aprendidos.
Evidências científicas e casos clínicos recentes
A terapia de reversão da dor (TRD) conta com respaldo empírico, particularmente a partir do ensaio clínico randomizado publicado por Ashar e colaboradores (2021), no qual se avaliou a eficácia dessa intervenção em pessoas com dor lombar crônica. Os resultados mostraram que os participantes que receberam TRD apresentaram:
- Reduções significativas na intensidade da dor em comparação com grupos de controle.
- Mudanças na atividade de regiões cerebrais implicadas no processamento da dor e da ameaça.
Esses achados apoiam a hipótese de que a dor crônica de tipo neuroplástico pode ser modificada por meio de intervenções direcionadas a mudar a interpretação cerebral da dor, em vez de se concentrar exclusivamente na abordagem periférica. A nível clínico, múltiplos relatos de caso e séries clínicas documentaram melhorias funcionais relevantes, como o retorno progressivo a atividades evitadas, diminuição do medo do movimento e recuperação da participação social e laboral.
Embora a TRD não seja uma intervenção universal para todo tipo de dor crônica, as evidências disponíveis sugerem que ela representa uma opção terapêutica especialmente útil em quadros nos quais não se identifica dano estrutural ativo e onde predominam mecanismos de sensibilização central e aprendizagem da dor.
Aplicação prática da terapia de reversão da dor (TRD) na neuropsicologia
A terapia de reversão da dor (TRD) pode integrar-se de maneira natural ao trabalho neuropsicológico, em pacientes com dor crônica de tipo neuroplástico, trabalhando com processos cognitivos, emocionais e comportamentais que mantêm a ativação dos circuitos de ameaça. A aplicação dessa prática não se limitaria a uma intervenção meramente sintomática, mas a neuropsicologia pode ter uma importante participação no processo de reaprendizagem, que busca modificar padrões atencionais, interpretativos que reforçam a sensibilização central.
Avaliação cognitiva, emocional e comportamental do paciente com dor crônica
Como parte da avaliação neuropsicológica do paciente com dor crônica, é clinicamente relevante explorar os seguintes componentes:
- Componentes cognitivos:
- Viéses atencionais em direção a sensações corporais e sinais de ameaça.
- Estilo interpretativo catastrófico ou hipervigilante em relação à dor.
- Crenças disfuncionais sobre o corpo, o dano e a incapacidade (“se dói, é porque algo está errado”, “o movimento vai me machucar”).
- Rigidez cognitiva e ruminação centrada na dor.
- Componentes emocionais:
- Níveis de ansiedade antecipatória, medo do movimento (cinesiofobia) e medo do dano.
- Estados afetivos associados à dor persistente, como frustração, desesperança ou irritabilidade.
- Dificuldades na regulação emocional diante do surgimento da dor.
- Componentes comportamentais:
- Comportamentos de evitação e redução progressiva de atividades significativas.
- Comportamentos de verificação corporal e busca constante de sinais de dor.
- Padrões de hiperproteção do corpo que reforçam a percepção de fragilidade.
Na TRD, essa avaliação não tem como único objetivo descrever o perfil do paciente, mas identificar os ciclos de retroalimentação que mantêm ativos os circuitos de ameaça (atenção → interpretação → emoção → comportamento → aumento da sensibilização). Esta formulação funcional permite desenhar intervenções destinadas a interromper esses ciclos, promovendo experiências corretivas de segurança corporal.
Integração com terapias físicas, ocupacionais e médicas
O trabalho com pacientes com dor crônica geralmente exige um trabalho interdisciplinar, onde a coordenação entre profissionais de saúde de diferentes áreas é fundamental para que as mensagens que o paciente receba de cada um deles não sejam contraditórias e não reforcem a percepção da dor como um dano estrutural ou como fragilidade corporal.
Do ponto de vista clínico, a integração com outras disciplinas permite:
- Com a área médica: Alinhar o discurso clínico para um modelo biopsicossocial da dor, evitando explicações alarmistas que reforcem a interpretação de perigo. A validação médica da ausência de dano ativo facilita o trabalho de reconceitualização da dor neuroplástica.
- Com fisioterapia e reabilitação: Promover a exposição gradual ao movimento a partir de um quadro de segurança, reduzindo a evitação comportamental e o medo do movimento. A TRD contribui com o trabalho sobre a interpretação cognitiva do movimento como seguro, o que potencializa os efeitos da intervenção física.
A coerência entre disciplinas contribui para que o paciente receba mensagens consistentes de segurança, diminuindo a ativação dos circuitos de ameaça e favorecendo a reaprendizagem neuroplástica.
Conclusão
Em conclusão, a abordagem da dor crônica segundo o modelo da terapia de reversão da dor (TRD) propõe uma mudança paradigmática na compreensão da dor a partir da neurociência da dor: de um sinal exclusivamente associado ao dano tecidual, para uma resposta aprendida do sistema nervoso que pode se manter mesmo na ausência de lesão ativa. Desde a neuropsicologia da dor crônica, essa abordagem permite conceituar a dor como um fenômeno dinâmico, modulável através da experiência, do aprendizado e da ressignificação cognitivo-emocional dos sinais corporais.
A neuroplasticidade, entendida como a capacidade do cérebro para reorganizar seus circuitos em função da experiência, constitui o fundamento neurocientífico que explica tanto a cronificação da dor como a possibilidade de sua reversão. A partir das pesquisas atuais sobre cérebro e dor crônica, sabemos que assim como os circuitos de ameaça podem ser hiper-treinados mediante a repetição de experiências dolorosas associadas ao medo, à hipervigilância corporal e à sensibilização central, esses circuitos podem enfraquecer quando o organismo aprende, de maneira experiencial, que o corpo é seguro e que a dor não representa um perigo real.
Além da redução da dor, essa abordagem promove uma mudança na relação do paciente com seu corpo, favorecendo a recuperação da funcionalidade, da autonomia e da participação em atividades significativas. A intervenção, portanto, não se limita a “controlar o sintoma”, mas a facilitar um processo de reaprendizagem neurofuncional da dor, no qual o cérebro pode modificar os circuitos implicados na dor crônica e reduzir a ativação persistente das redes de ameaça.
Sob essa perspectiva, o manejo da dor crônica neuroplástica visa ajudar o sistema nervoso a sair do modo de alerta sustentado e recuperar um estado de regulação e segurança, apoiando-se nos princípios da neurociência da dor e em intervenções como a terapia de reversão da dor, que buscam re-treinar o cérebro para interpretar os sinais corporais a partir de um quadro de segurança e não de perigo.
Bibliografia
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Perguntas frequentes sobre a dor crônica e a terapia de reversão da dor (TRD)
1. O que é a dor crônica neuroplástica?
A dor crônica neuroplástica é um tipo de dor persistente que se mantém por mais de três meses e que nem sempre está associada a um dano tecidual ativo. Nesses casos, o problema está relacionado a alterações no sistema nervoso central e a processos de sensibilização central, nos quais o cérebro mantém ativas as vias da dor mesmo quando os tecidos já se recuperaram.
2. Qual é a diferença entre dor aguda, dor crônica e dor nociplástica?
A dor aguda surge como resposta direta a uma lesão ou inflamação e tende a desaparecer quando o tecido se recupera. A dor crônica persiste por mais de três meses e pode continuar mesmo após a cura do tecido. A dor nociplástica ou neuroplástica ocorre quando há uma alteração no processamento da dor no sistema nervoso central, sem que exista necessariamente dano tecidual ativo.
3. Pode existir dor sem dano físico no corpo?
Sim. Pela neurociência da dor sabemos que o cérebro pode gerar uma experiência dolorosa mesmo quando não existe uma lesão estrutural ativa. Em alguns casos de dor crônica neuroplástica, o sistema nervoso aprende a interpretar determinados sinais corporais como perigosos, mantendo ativados os circuitos da dor através de mecanismos como a sensibilização central e a hipervigilância corporal.
4. Por que o cérebro continua gerando dor depois que o tecido se recuperou?
Em alguns casos de dor crônica, o cérebro pode continuar ativando as vias da dor mesmo depois que a lesão inicial cicatrizou. Isso acontece porque os circuitos neuronais associados à dor foram fortalecidos por processos de aprendizagem e repetição, especialmente quando a dor foi acompanhada de medo, estresse ou hipervigilância corporal. Esse fenômeno explica por que a dor neuroplástica pode persistir sem dano tecidual ativo.
5. Como o cérebro muda nas pessoas com dor crônica?
Em pessoas com dor crônica, diferentes estudos de neuroimagem têm mostrado mudanças na atividade e conectividade de várias redes cerebrais envolvidas na percepção da dor. Regiões como a ínsula, a amígdala, o córtex cingulado anterior e a rede de saliência podem apresentar maior ativação. Essas alterações refletem processos de sensibilização central, nos quais o cérebro interpreta os sinais corporais como mais ameaçadores ou dolorosos.
6. O que é a sensibilização central e qual o papel dela na dor crônica?
A sensibilização central é um processo pelo qual o sistema nervoso central se torna mais sensível aos sinais corporais, amplificando a percepção da dor. Na dor crônica neuroplástica, esse fenômeno pode fazer com que estímulos que normalmente não seriam dolorosos —como certos movimentos ou pressões leves— sejam interpretados pelo cérebro como sinais de ameaça, mantendo ativa a experiência dolorosa.
7. O que é a terapia de reversão da dor (TRD)?
A terapia de reversão da dor (TRD), também conhecida como Pain Reprocessing Therapy (PRT), é uma abordagem terapêutica baseada na neurociência da dor que busca ajudar o cérebro a reinterpretar os sinais corporais a partir de um quadro de segurança. Por meio de psicoeducação, técnicas de atenção plena e reavaliação cognitiva da dor, a TRD pretende reeducar os circuitos cerebrais envolvidos na dor crônica neuroplástica.
8. A terapia de reversão da dor tem evidência científica?
Sim. A terapia de reversão da dor (TRD) conta com evidência científica, incluindo ensaios clínicos randomizados que mostraram reduções significativas na intensidade da dor em pacientes com dor crônica, especialmente em casos de dor lombar persistente. Esses estudos sugerem que intervir nos processos cerebrais envolvidos na interpretação da dor pode modificar a atividade das redes neuronais relacionadas à ameaça e à percepção dolorosa.
9. Qual papel a neuropsicologia pode ter no tratamento da dor crônica?
A neuropsicologia pode desempenhar um papel relevante no manejo da dor crônica, especialmente em casos de dor neuroplástica. Por meio da avaliação de vieses atencionais, crenças sobre a dor, regulação emocional e comportamentos de evitação, o neuropsicólogo pode identificar os fatores cognitivos e emocionais que mantêm ativos os circuitos de ameaça e contribuir para sua modificação por meio de intervenções terapêuticas.
10. A dor crônica pode ser modificada graças à neuroplasticidade?
Sim. A neuroplasticidade permite que o cérebro modifique suas conexões neuronais em função da experiência. Na dor crônica, os circuitos cerebrais da dor podem ter sido fortalecidos devido à repetição de experiências associadas ao medo e à hipervigilância. No entanto, por meio de intervenções adequadas, o sistema nervoso também pode reaprender a interpretar os sinais corporais de maneira menos ameaçadora, reduzindo assim a experiência de dor.







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