Marcos Ríos-Lago expõe a complexidade de avaliar a tomada de decisões na neuropsicologia clínica, analisando sua base cerebral e os instrumentos mais utilizados para sua avaliação.
Avaliação neuropsicológica e funções executivas
Os neuropsicólogos devemos abordar, como parte do nosso trabalho cotidiano, a avaliação da atenção, da memória, e de outros processos cognitivos. Entre todos os mecanismos, podemos destacar a complexidade da avaliação das funções executivas. Trata-se de um construto complexo (talvez a união de vários construtos sob um mesmo guarda-chuva conceitual) para o qual não dispomos de um modelo cognitivo aceito por toda a comunidade científica.
Modelos atuais para o estudo das funções executivas
Existem alguns modelos como o de Mateer (1999), de grande utilidade clínica, ou o de Diamond (2013), que encontra um bom equilíbrio entre a realidade do funcionamento do sistema nervoso e o pragmatismo necessário no dia a dia da neuropsicologia clínica. No entanto, nenhum deles, sendo excelentes ferramentas, descreve com detalhe uma atividade cotidiana como a tomada de decisões, algo que muitos diriam que poderia englobar-se dentro desse conjunto de funções executivas.
Propostas teóricas recentes
Existem algumas propostas teóricas, como as que apresentam Morelli et al (2022) ou Lebreton e Lopez-Persem (2022), mostrando ainda mais, se possível, a tremenda complexidade de um processo de tomada de decisões.
¿Qué es la toma de decisiones desde una perspectiva neuropsicológica?
A tomada de decisões é uma função que integra processos cognitivos, afetivos e motivacionais. Trata-se de uma função complexa dirigida a selecionar uma opção ou uma ação entre várias alternativas e escolher a mais adaptativa para alcançar uma meta, baseando-se nas capacidades/habilidades do indivíduo, emoções, valores, preferências e crenças, e está influenciada por fatores contextuais, motivacionais e sociais.
Este processo costuma terminar em uma escolha, que pode ou não ser levada à ação. Além disso, é aplicável a elementos mais concretos (como escolher o que comer ou que rua seguir), ou abstratos (como escolher em que acreditar, se abandonar ou não um emprego, se investir em bitcoin, etc.).
Tipos de decisiones y factores implicados en la toma de decisiones
De acuerdo con Glimcher (2013), existen decisiones de tipo perceptivo, decisiones basadas en valor, o decisiones generales.
Pero los elementos implicados son múltiples, complejos y cuya interacción nos resulta desconocida:
- níveis de abstração ou tangibilidade da decisão,
- impacto da decisão (no curto e longo prazo),
- automatismo no processo (vs. controle),
- análise de ganhos e perdas,
- cálculos de probabilidades,
- gestão da incerteza,
- elementos emocionais envolvidos,
- bem como o contexto físico e social.
Importancia clínica de la evaluación de la toma de decisiones desde la neuropsicología
Do ponto de vista neuropsicológico, o estudo da tomada de decisões é crucial para compreender como algumas alterações no funcionamento cerebral podem afetar a capacidade de uma pessoa de escolher de maneira adaptativa, o que tem implicações diretas na vida cotidiana, na autonomia e na qualidade de vida.
Modelos teóricos útiles para guiar la evaluación de la toma de decisiones
Como sempre, dispor de modelos que guiem a avaliação e nos ajudem a interpretar os achados é fundamental.
Alguns incorporam as seguintes fases (Ernst, 2005; Doya, 2008; Robinson, 2016; Heilbronner e Hayden, 2016):
- Apresentação de vários estímulos que predizem resultados mensuráveis.
- Avaliação das opções e formação de preferências.
- Seleção de opções.
- Seleção das ações e execução.
- Avaliação das ações e dos resultados.
Além disso, sabemos do elevado custo de analisar friamente a informação disponível (se formos justos devemos reconhecer a impossibilidade de o fazer) e, a partir daí, calcular a melhor opção possível.
A perspectiva evolucionista aponta que, devido a essa complexidade inabarcável para o raciocínio frio, dispomos de um sistema que aplica heurísticos. Dito de outra forma, colocamos toda a nossa história de aprendizagens à disposição da tomada de decisões presentes (Van der Pligt, 2015; Lerner et al., 2015; Damasio, 1996; Bechara et al., 1994).
Estructuras cerebrales implicadas en los procesos de toma de decisiones
Apesar de sua complexidade, atualmente conhecem-se algumas estruturas implicadas nesses processos, reunidas de forma resumida na Tabela 1.
| Estrutura cerebral | Função principal |
| Córtex pré-frontal dorsolateral | Planejamento, raciocínio, regulação emocional |
| Córtex orbitofrontal | Representação de recompensas e probabilidades, flexibilidade adaptativa |
| Córtex ventromedial | Codificação do valor subjetivo |
| Cíngulo anterior | Supervisão, avaliação do esforço, detecção de erros |
| Ínsula | Avaliação de estados internos, antecipação emocional |
| Amígdala | Avaliação da relevância |
| Estriado | Predição de recompensa, aprendizagem por reforço |
| Córtex parietal | Cálculo probabilístico e espacial de opções |
Alteraciones clínicas en la toma de decisiones
Lesões nessas estruturas, ou sua degeneração associada a doenças, costumam produzir déficits em cada um dos elementos que conformam a tomada de decisões. Seu estudo pela neuropsicologia permite compreender as alterações associadas a diversas condições neurológicas e psiquiátricas.
A modo de resumo, esboçam-se algumas das características principais que podem ser observadas em diferentes grupos clínicos (Tabela 2). Os erros mais frequentes levam os indivíduos a dar respostas desadaptativas, diferentes das observadas na população saudável.
| Transtorno | Alteração na tomada de decisões |
| TCE | Impulsividade, desinibição, risco elevado |
| Demência frontotemporal | Desregulação social, apatia, escolhas rígidas |
| Alzheimer | Perda de julgamento, avaliação deficiente das consequências |
| TDAH | Decisões precipitadas, baixo controle inibitório |
| Transtorno bipolar | Comportamentos arriscados na mania, indecisão na depressão |
| Esquizofrenia | Déficits em motivação, atribuição de valor e aprendizagem por retroalimentação |
| Depressão e ansiedade | Viés negativo, evitamento, superestimação do risco, ruminação e indecisão, déficit na busca por reforço, alterações na avaliação do custo |
| Apatia | Ausência de preferência entre opções, valor diluído das opções, falta de execução |
| Dependências | Sobrevalorização do reforço imediato |
Instrumentos disponibles para la evaluación de la toma de decisiones
Quanto aos instrumentos disponíveis para sua avaliação, não existe um método único aceito por toda a comunidade científica. Também não existem diretrizes clínicas para o registro adequado desse processo e os critérios existentes são variados e com escasso consenso.
Em todo caso, é necessário incorporar alguns elementos éticos (que dificultam ainda mais a tarefa de avaliação), como buscar um equilíbrio entre respeitar a liberdade do indivíduo e sua segurança, estar capacitado para avaliar a tomada de decisões, e ser capaz de selecionar, aplicar e interpretar adequadamente as ferramentas e os resultados que se obtiverem.
A avaliação, como na maioria das ocasiões em neuropsicologia, deve ser capaz de responder a uma pergunta específica. Esta pode ser dirigida a estabelecer um diagnóstico, detectar uma dificuldade para uma possível indenização, elaborar um plano de reabilitação ou, mesmo, responder a uma pergunta específica no contexto forense (capacidade parental, gestão das próprias finanças, responsabilidade pela prática de um delito, capacidade de testar, etc.).
Vejamos alguns exemplos:
- Diagnóstico diferencial: alguns transtornos apresentam perfis específicos de alteração na tomada de decisões (por exemplo, o jogo patológico, a demência frontotemporal, o TDAH ou a esquizofrenia).
- Avaliação da autonomia funcional: especialmente relevante em idosos, pessoas com comprometimento cognitivo ou lesão cerebral, pois decisões inadequadas podem afetar sua capacidade de gerir finanças, assinar documentos legais ou viver de forma independente.
- Planejamento de intervenções: uma avaliação precisa permite elaborar estratégias de reabilitação ou apoio que melhorem a capacidade de escolha ou compensem seus déficits.
De acordo com Freedman, Stuss e Gordon (1991), é necessária a avaliação dos processos cognitivos subjacentes à capacidade de tomar decisões competentes, com ênfase na identificação de funções preservadas que possam ser utilizadas para compensar os déficits existentes.
Assim, é preciso avaliar o desempenho da atenção, da linguagem, da memória e das funções executivas. O paciente deve apresentar atenção adequada para participar da avaliação de funções cognitivas específicas. Deve-se avaliar se o paciente é capaz de compreender instruções relevantes, reter informações por tempo suficiente para avaliá-las em relação a experiências recentes e passadas, e expressar seus desejos.
Em seguida, deve-se determinar se o paciente possui uma capacidade de julgamento suficientemente intacta e um nível adequado de consciência de seu desempenho e das dificuldades. Os clínicos também devem conhecer quais elementos executivos podem influenciar o processo de tomada de decisões.
Por exemplo, a inibição de respostas impulsivas, a capacidade de planejar e sequenciar ações, a flexibilidade para adaptar-se a novas contingências e a capacidade de supervisionar o desempenho, detectar e corrigir erros. O examinador deve decidir se as habilidades cognitivas preservadas do paciente são suficientes para permitir que ele tome uma decisão adequada em relação à questão específica que lhe é colocada.
Se for detectado um comprometimento cognitivo significativo, o examinador deve realizar uma avaliação detalhada das habilidades compensatórias que possam ajudar a superar os déficits. A essa avaliação neuropsicológica inicial devem ser acrescentados os testes que permitam avaliar de forma específica alguns componentes da tomada de decisões.
Para isso dispõe-se de algumas tarefas específicas listadas na Tabela 3.
| Teste | Avaliação específica |
| Iowa Gambling Task | Decisão sob incerteza e aprendizagem emocional |
| Cambridge Gambling Task | Risco conhecido e aversão ao risco |
| Game of Dice Task | Risco explícito e planejamento |
| Balloon Analogue Risk Task | Impulsividade e propensão ao risco |
| Delay Discounting Task | Preferência por recompensas imediatas |
| Columbia Card Task | Regulação emocional e sensibilidade à perda/recompensa |
| Probabilistic Reversal Task | Flexibilidade cognitiva, sensibilidade a mudanças de contingência |
| Dilemas morais (p.ex. problema do bonde) | Raciocínio ético e emocional |
Conclusões
A tomada de decisões não é um processo puramente lógico e frio, nem exclusivamente emocional. É o resultado de uma interação dinâmica entre múltiplas variáveis cognitivas, emoções, contexto e experiência prévia.
Por meio de métodos clínicos, testes padronizados e observação, o neuropsicólogo pode identificar alterações nessa capacidade, contribuindo para o diagnóstico, o planejamento terapêutico e a tomada de decisões éticas e legais informadas.
Compreender esses processos em profundidade e avaliar suas alterações com ferramentas adequadas permitirá responder adequadamente às perguntas para as quais a avaliação foi desenhada e, em caso de necessidade, programar as intervenções clínicas mais eficazes.
Embora ainda existam limitações metodológicas, o avanço em modelos neurocientíficos e em ferramentas com maior validade ecológica continua enriquecendo este campo, que se situa na interseção entre a cognição, a emoção e o comportamento social.
Parece que no futuro próximo disporemos de modelos híbridos que combinem avaliações tradicionais com tecnologias avançadas e, como parece começar a ser norma na neuropsicologia, o uso da inteligência artificial e a predição algorítmica do desempenho.

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Bibliografia
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A digitalização na avaliação neuropsicológica
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