O neuropsicólogo clínico Carlos Alberto Serrano-Juárez expõe os programas mais eficazes para tratar a cognição social na esquizofrenia: Treinamento em reconhecimento do afeto, Gestão das emoções e Terapia psicológica integrada.
A esquizofrenia é um transtorno mental grave pelo qual as pessoas interpretam a realidade de forma anormal. A esquizofrenia pode provocar uma combinação de alucinações, delírios e transtornos graves no pensamento e no comportamento, que afeta o funcionamento diário e pode ser incapacitante.
As pessoas que têm esquizofrenia precisam receber tratamento durante toda a vida. O tratamento precoce pode ajudar a controlar os sintomas antes que se desenvolvam complicações mais graves e pode melhorar o prognóstico a longo prazo.
Programas para o tratamento da cognição social na esquizofrenia
Ao longo dos últimos anos, foram múltiplos os programas destinados ao tratamento dos déficits na cognição social que habitualmente se apresentam no caso da esquizofrenia e que, por sua vez, foram cientificamente validados. Neste primeiro artigo relacionado com este tema, serão apresentados alguns deles.
Treinamento em reconhecimento do afeto
Segundo Durá e cols (2008) o Treinamento em Reconhecimento do Afeto (TAR) (Frommann e cols, 2003; Wölwer e cols, 2005) é um treinamento padronizado e informatizado para o reconhecimento da expressão facial.
O programa compreende 3 blocos com 4 sessões por bloco, com duração por sessão de aproximadamente 45 minutos e um total de 12 sessões. Trabalha-se em pares de pacientes com a orientação do psicoterapeuta. As tarefas que vão sendo apresentadas têm dificuldade crescente:
- No primeiro bloco os pacientes aprendem a identificar e discriminar, assim como a verbalizar os principais sinais faciais das 6 emoções básicas. A pergunta que lhes é feita é “que afeto essa pessoa expressa?”.
- No segundo bloco, tenta-se integrar essa visão detalhada do afeto num modo de processamento cada vez mais global, a partir das primeiras impressões, do processamento não verbal e do processamento de expressões faciais com baixa intensidade. A tarefa a ser realizada é “Classificar as fotos segundo a intensidade da afetividade facial”.
- O terceiro bloco compreende, por um lado, o processamento de expressões não prototípicas e ambíguas do afeto, que frequentemente ocorrem na vida diária e, por outro, a integração de expressões faciais no contexto social, comportamental e situacional. Um exemplo de tarefa pedido aqui é responder à pergunta “qual destas pessoas acabou de receber flores e está pensando: que bonitas são?”.
Ao longo do programa utiliza-se um conjunto de estratégias de substituição (repetição, aprendizagem sem erros, feedback instantâneo) e estratégias de compensação (abstração de características, verbalização, autoinstruções). A principal estratégia compensadora é a verbalização da expressão facial em termos de gestos elementares.
Em um estudo recente Vaskinn e cols (2019) encontram que o treinamento de reconhecimento do afeto fornece evidências de efeitos benéficos que são generalizáveis e perduram ao longo do tempo, mas também destacam a necessidade de um tratamento adicional para trabalhar a cognição social na esquizofrenia e assim alcançar benefícios no funcionamento psicossocial.

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Treinamento em gestión de emociones
Segundo Ruiz e cols (2006) o Emotion Management Training (EMT; Hodel e cols, 1998) é um programa que avalia os déficits na percepção de emoções, assim como as consequências destes no ajuste social e na psicopatologia.
É administrado em pequenos grupos em três passos:
- No primeiro passo, os déficits na percepção de emoções são tratados mediante a avaliação passo a passo da expressão de si mesmo e dos outros.
- No segundo passo, o pobre ajuste social é tratado mediante a lembrança das estratégias de enfrentamento atualmente utilizadas.
- Finalmente, no terceiro passo, tanto o ajuste social quanto a baixa tolerância ao estresse, são melhorados mediante a aquisição pela pessoa de estratégias de enfrentamento eficazes.
Treina-se os participantes para alcançar os objetivos do programa mediante o uso de intervenções comportamentais como o role-play ou exercícios ao vivo
Terapia psicológica integrada
Além de um primeiro módulo denominado de Diferenciação Cognitiva, também conta com outros quatro módulos destinados ao abordaje do tratamento da cognição social na esquizofrenia e a melhoria das competências interpessoais.
Estes módulos consistem no seguinte:
- Percepção Social: Pretende a melhoria da capacidade perceptiva e interpretativa do paciente em situações sociais e será explicado mais adiante em profundidade.
- Comunicação Verbal: Seu objetivo principal é estimular a troca e a comunicação social entre os membros do grupo.
- Habilidades Sociais: É um módulo destinado à melhoria da execução interpessoal dos sujeitos. Sua metodologia de trabalho não difere dos procedimentos tradicionais de intervenção já desenhados nesta área.
- Resolução de Problemas Interpessoais: Abordam-se de forma aberta e flexível situações problemáticas trazidas pelos participantes. Trabalha-se sobre a discussão e análise dessas situações, incorporando a possibilidade de utilizar o role-play para modelar a resposta adequada à situação.
O módulo de percepção social
Segundo Ruiz e cols (2006) dos cinco módulos, o segundo, denominado Percepção Social, é o mais estreitamente relacionado com a cognição social, já que se trata de um de seus componentes. Nele são empregadas 40 diapositivas que representam distintas situações sociais. Variam quanto ao grau de complexidade cognitiva e da carga emocional do conteúdo. No início trabalham-se as diapositivas menos complexas que habitualmente apresentam um conteúdo emocionalmente neutro e, à medida que a terapia avança, vão-se trabalhando diapositivas mais complexas e com maior carga emocional.
O módulo está dividido em três fases:
- Na primeira fase, denominada coleta das informações do diapositivo, pede-se aos participantes que descrevam os elementos presentes na imagem projetada. Algumas das tarefas consistem em: focalizar, tratar conteúdos relevantes da imagem, chamar a atenção para o que foi esquecido e resumir.
- Na segunda fase denominada interpretação e discussão do diapositivo, os participantes oferecem uma explicação sobre os conteúdos do diapositivo. Cada opinião deve ser justificada tomando como referência a informação visual coletada na primeira etapa. Depois debate-se sobre qual interpretação lhes parece a mais adequada ou a mais provável. As tarefas, portanto, consistem em: interpretar, fundamentar a interpretação e debater em grupo.
- Finalmente, na terceira fase denominada atribuição de um título, cada participante indica um título breve que resuma o mais importante da situação descrita na imagem e, em seguida, estabelece-se um novo debate sobre qual título lhes parece mais adequado.
Referências do tratamento da cognição social na esquizofrenia
- Brenner, H.D., Hodel, B., Roder, V. e Corrigan, P. (1992). Treatment of cognitive dysfunctions and behavioural deficits in schizophrenia. Schizophrenia Bulletin, 18 (1), 21-26.
- Brenner, H.D., Roder, V., Kienzle, N., Reed, D. e Liberman, R.P. (1994). Integrated Psychological Therapy for Schizophrenia Patients. Toronto: Hogrefe e Huber Publishers.
- Durá, I. F., Ruiz, J. C. R., Ferrer, S. G., Boada, M. J. S., e Vivo, C. D. (2008). Esquizofrenia: déficit en cognición social y programas de intervención. Informació Psicológica, (93), 53-64.
- Frommann, N., Streit, M., e Wölwer, W. (2003) Remediation of facial affect recognition impairments in patients with schizophrenia: a new training program. Psychiatry Research, 117, 281-284.
- Hodel, B., Brenner, H.D., Merlo, M.C. e Teuber, J.F. (1998). Emotional management therapy in early psychoses. Brithish Journal of Psychiatry, 172 (Supl. 33),128-133.
- Roder, V., Brenner, H.D., Hodel, B. e Kienzle, N. (1996). Terapia integrada de la esquizofrenia. Barcelona: Ariel.
- Ruiz, J. C., García, S., e Fuentes, I. (2006). La relevancia de la cognición social en la esquizofrenia. Apuntes de Psicología, 24(1-3), 137-155
- Vaskinn, A., Løvgren, A., Egeland, M. K., Feyer, F. K., Østefjells, T., Andreassen, O. A., … e Sundet, K. (2019). A randomized controlled trial of training of affect recognition (TAR) in schizophrenia shows lasting effects for theory of mind. European archives of psychiatry and clinical neuroscience, 1-10.
- Wölwer, W., Frommann, N., Halfmann, S., Piaszek, A., Streit, M. e Gaebel, W. (2005) Remediation of impairments in facial affect recognition in schizophrenia: Efficacy and specificity of a new training program. Schizophrenia Research, 80, 295-303.







Tratamento Cognitivo na Esquizofrenia: Programas para Melhorar a Percepção Social e o Reconhecimento Emocional
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