A doutoranda Marta Arbizu Gómez analisa o Relatório de Consenso da Sociedad Española de Neurología (SEN) sobre a gestão de novas terapias anti-amiloide para o Alzheimer.
Resumo executivo:
O Consenso da Sociedad Española de Neurología (SEN) 2026 estabelece que a chegada das terapias anti-amiloide marca uma transição histórica do tratamento sintomático para terapias que modificam o curso da doença de Alzheimer. Para os profissionais de neurorreabilitação, esse avanço exige uma deteção ultra-precoce e uma integração crítica entre o tratamento farmacológico e a estimulação cognitiva personalizada para maximizar a reserva funcional do paciente.
Por que os novos tratamentos para o Alzheimer representam uma mudança de paradigma?
Durante décadas, o tratamento da doença de Alzheimer tem-se centrado principalmente em aliviar os sintomas cognitivos por meio de fármacos que atuam sobre a neurotransmissão. No entanto, nos últimos anos surgiram novas terapias dirigidas a modificar o curso da doença.
Entre elas destacam-se os anticorpos monoclonais anti-amiloide, como o lecanemab, que procuram reduzir o acúmulo da proteína β-amiloide no cérebro. Ao contrário dos tratamentos tradicionais, esses fármacos não atuam apenas sobre os sintomas, mas pretendem retardar a progressão da doença.
Essa nova abordagem implica também uma mudança importante na prática clínica. Para que esses tratamentos sejam eficazes, é necessário identificar os pacientes em fases iniciais, quando o dano neuronal ainda é limitado.
No entanto, a introdução de essas terapias também coloca desafios importantes para os sistemas de saúde: desde a disponibilidade de exames diagnósticos até a reorganização dos serviços clínicos.
O relatório de consenso da Sociedad Española de Neurología (SEN) sobre a incorporação de novos tratamentos para a doença de Alzheimer analisa precisamente esses desafios desde a perspetiva dos profissionais de saúde.
Como foi conduzido este estudo sobre novos tratamentos para o Alzheimer?
O relatório recolhe os resultados de um processo de consenso entre neurologistas de diversos hospitais espanhóis, com o objetivo de avaliar o impacto das novas terapias anti-amiloide na prática clínica e na organização do sistema de saúde.
Para tal, foi elaborado um questionário estruturado que abordava diferentes aspectos do manejo do paciente com Alzheimer, entre eles:
- percepção clínica dos novos tratamentos,
- impacto assistencial e organizacional,
- tempos de espera,
- disponibilidade de recursos diagnósticos,
- necessidade de equipes multidisciplinares,
- implicações econômicas.
O estudo foi desenvolvido em duas rondas de inquéritos seguindo uma metodologia de consenso estruturado. Considerou-se que existia consenso quando pelo menos o 70% dos participantes concordava numa mesma direção de resposta.
Essa abordagem permitiu identificar tanto as áreas de acordo entre especialistas como os principais pontos de incerteza.

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O que revelam os resultados-chave deste estudo sobre o Alzheimer?
Os resultados mostram uma perceção amplamente positiva em relação aos novos tratamentos.
Em primeiro lugar, existe um consenso muito sólido entre os neurologistas em que esses fármacos representam uma mudança de paradigma no tratamento do Alzheimer. Além disso, a maioria dos especialistas considera que as melhorias cognitivas observadas nos ensaios clínicos podem ser relevantes na prática clínica.
Também há acordo em que os tratamentos podem ser seguros quando se aplicam protocolos adequados de monitorização. No entanto, persistem dúvidas sobre o equilíbrio entre benefícios e riscos, especialmente em relação aos efeitos adversos conhecidos como ARIA (Amyloid-Related Imaging Abnormalities).
Do ponto de vista organizacional, os especialistas concordam que a chegada dessas terapias aumentará a procura nas consultas de neurologia, o que poderá traduzir-se em maiores tempos de espera e pressão assistencial.
Além disso, reconhece-se o papel chave da medicina de família na triagem inicial de pacientes, embora não exista consenso sobre se a atenção primária será capaz de filtrar adequadamente os casos candidatos ao tratamento.
Em conjunto, os especialistas identificam vários desafios chave que deverão ser enfrentados para integrar essas terapias no sistema de saúde.
| Área | Principais desafios identificados |
|---|---|
| Neurologia | Aumento da demanda assistencial e das listas de espera. |
| Diagnóstico | Necessidade de biomarcadores e exames de neuroimagem. |
| Radiologia | Aumento de ressonâncias magnéticas para monitoramento. |
| Atenção primária | Papel chave na triagem inicial de pacientes. |
| Organização sanitária | Necessidade de equipes multidisciplinares e novos circuitos assistenciais. |
Recursos diagnósticos e possíveis gargalos
Um dos principais desafios identificados no relatório é a disponibilidade de recursos diagnósticos.
Embora a maioria dos centros disponha de ferramentas como ressonância magnética, PET ou biomarcadores no líquido cefalorraquidiano, os especialistas assinalam que os tempos de espera podem tornar-se um gargalo importante.
Em muitos hospitais, o tempo médio para realizar uma ressonância magnética situa-se em torno de três meses, embora exista grande variabilidade entre centros.
Além disso, os novos tratamentos requerem controlos periódicos por ressonância magnética para detetar possíveis efeitos adversos, o que poderá aumentar ainda mais a carga de trabalho nos serviços de radiologia.
Nesse contexto, os neurologistas preveem que os maiores aumentos de atividade ocorrerão em três áreas principais:
- Neurologia.
- Radiologia.
- Atenção primária.
A importância das equipes multidisciplinares
Outro dos aspetos destacados no relatório é a necessidade de reforçar a colaboração entre diferentes profissionais de saúde.
Os especialistas concordam que o manejo desses pacientes exigirá equipes multidisciplinares nas quais participem:
- neurologistas,
- radiologistas,
- médicos de família,
- neuropsicólogos,
- pessoal de laboratório,
- enfermagem especializada.
Além disso, há um amplo consenso de que o neurologista deve coordenar essa equipe, assegurando a correta seleção de pacientes, o monitoramento do tratamento e a comunicação entre os diferentes serviços envolvidos.
Essa abordagem multidisciplinar é fundamental para garantir um manejo seguro e eficiente dos novos tratamentos.
Quais são as implicações para a prática clínica?
Os resultados do relatório sugerem que a introdução de terapias modificadoras da doença transformará profundamente a atenção ao Alzheimer.
Entre as principais mudanças previstas destacam-se:
- Diagnóstico mais precoce: A identificação de pacientes em fases iniciais será fundamental para aproveitar o potencial desses tratamentos.
- Reorganização do sistema assistencial: Alguns especialistas propõem modelos organizacionais do tipo hub-and-spoke, nos quais hospitais de referência se encarregam do diagnóstico avançado e da administração do tratamento, enquanto outros centros participam na triagem e no acompanhamento dos pacientes.
- Maior coordenação entre profissionais: A colaboração entre atenção primária, neurologia, radiologia e outros serviços será essencial para evitar atrasos no diagnóstico e garantir um acesso equitativo aos tratamentos.
Como esse avanço se relaciona com a NeuronUP?
A chegada de terapias modificadoras da doença abre novas oportunidades para uma abordagem integral do Alzheimer.
Enquanto os avanços biomédicos permitem diagnosticar a doença em fases mais precoces, as ferramentas de reabilitação cognitiva desempenham um papel fundamental para preservar a autonomia funcional e a qualidade de vida dos pacientes.
Plataformas como NeuronUP facilitam o desenvolvimento de programas de estimulação cognitiva personalizados, adaptados ao perfil clínico de cada paciente. Em combinação com os novos tratamentos farmacológicos, essas intervenções podem contribuir para maximizar o benefício terapêutico.
Dessa forma, o futuro da abordagem do Alzheimer aponta para um modelo multidisciplinar onde diagnóstico precoce, tratamento farmacológico e reabilitação cognitiva trabalhem de forma complementar.
Conclusão
As novas terapias anti-amiloide representam um dos avanços mais relevantes na investigação do Alzheimer nas últimas décadas. No entanto, sua implementação clínica apresenta desafios importantes para os sistemas de saúde.
O relatório de consenso da Sociedad Española de Neurología mostra que, embora haja otimismo quanto ao seu potencial terapêutico, será necessário adaptar a organização assistencial, reforçar os recursos diagnósticos e melhorar a coordenação entre profissionais.
Somente mediante essa adaptação será possível aproveitar plenamente o potencial desses tratamentos e avançar para uma atenção mais precoce e personalizada para as pessoas com doença de Alzheimer.
Bibliografia
- Sociedad Española de Neurología (SEN). Relatório de resultados do consenso de gestão hospitalar sobre a incorporação de novos tratamentos para a doença de Alzheimer.
Perguntas frequentes sobre as novas terapias no Alzheimer
1. Por que as terapias anti-amiloide representam uma mudança de paradigma no Alzheimer?
Ao contrário dos tratamentos tradicionais que apenas aliviam sintomas cognitivos atuando sobre a neurotransmissão, os novos fármacos como o lecanemab são terapias modificadoras da doença. Seu objetivo é reduzir o acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro para desacelerar a progressão do declínio. Isso obriga o sistema a passar de um modelo reativo para um de detecção ultraprecoce.
2. Quais são os maiores desafios logísticos para os hospitais espanhóis segundo a SEN?
O relatório de consenso da Sociedad Española de Neurología (SEN) destaca três gargalos críticos:
- Tempos de espera: A média para realizar uma ressonância magnética é de aproximadamente três meses, o que dificulta o diagnóstico rápido e o acompanhamento.
- Acesso a biomarcadores: Existe uma necessidade urgente de aumentar a disponibilidade de exames de LCR (líquido cefalorraquidiano) e PET-amiloide para confirmar o diagnóstico.
- Saturação assistencial: Prevê-se um aumento massivo da demanda nas consultas de neurologia e radiologia.
3. Quem deve compor a equipe multidisciplinar nos novos tratamentos para o Alzheimer?
O manejo eficiente desses pacientes requer uma coordenação liderada pelo neurologista, que integre os seguintes profissionais:
- Neuropsicólogos: Fundamentais para a avaliação diagnóstica e o acompanhamento da eficácia cognitiva.
- Radiologistas e pessoal de laboratório: Chave para o diagnóstico por imagem e biomarcadores.
- Enfermagem especializada e medicina de família: Essenciais para a administração do fármaco e a triagem inicial.
4. O que são as ARIA e como devem ser monitoradas?
As ARIA (Amyloid-Related Imaging Abnormalities) são anomalias de imagem relacionadas ao amiloide que podem aparecer como efeitos adversos dessas terapias. O consenso da Sociedad Española de Neurología (SEN) ressalta que esses fármacos podem ser seguros se forem aplicados protocolos estritos de monitorização por meio de ressonâncias magnéticas periódicas para detectar e gerir essas complicações de forma precoce.
5. A reabilitação cognitiva é compatível com a NeuronUP e os novos fármacos para o Alzheimer?
É totalmente complementar e necessária para uma abordagem integral. Enquanto a imunoterapia atua sobre a patologia molecular, plataformas como a NeuronUP permitem implementar programas de estimulação cognitiva personalizados que ajudam a preservar a autonomia funcional e a melhorar a qualidade de vida do paciente. A sinergia entre fármacos e reabilitação não farmacológica é fundamental para maximizar o benefício terapêutico total.







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