A pedagoga Irma Fernández expõe neste artigo as dificuldades que as pessoas com Asperger enfrentam no seu dia a dia.

O termo transtorno do espectro autista tem sido motivo de debate, pois, para quem interage com pessoas que o vivenciam e, além disso, possui pensamento analítico, é relevante ter clareza nos conceitos. Independentemente de como se chama ou se faz referência à pessoa (autista, com autismo ou com Asperger), é indispensável oferecer compreensão, apoio, orientação e acompanhamento empático ao longo da vida, ou seja, desde casa, durante os estudos no ensino fundamental, médio e superior, até a entrada no mercado de trabalho (no melhor dos casos).
A condição do espectro autista até alguns anos atrás considerava a categoria síndrome de Asperger; no entanto, ela desaparece na versão mais recente do Manual DSM-5 e da CIE-11. Atualmente, está catalogada como autismo nível 1 que requer ajuda. O relevante e real é que a condição existe e está presente na sociedade, ou seja, na família, na escola, em centros e no ambiente de trabalho.
A pessoa com Asperger na sociedade
Sabe-se que um número significativo de pessoas passa pela vida sem ser diagnosticada ou, até mesmo, mal diagnosticada (com TDA ou TDAH, transtorno do desenvolvimento da linguagem com deficiência principalmente da linguagem pragmática, transtorno da comunicação social ou transtorno desafiador de oposição, entre outros). É prioritário mencionar que, em alguns casos, existem comorbidades e que se deve oferecer atenção integral à pessoa. O que sugere esse equívoco são sempre os comportamentos que prevalecem em grupo. A peculiaridade na forma de se relacionar, comunicar, pensar, usar objetos e reagir a certos estímulos é o que chama a atenção.
Asperger e adaptação
As educadoras de jardim de infância e os colegas são quem percebem certos comportamentos classificados como “estranhos” nos colegas de classe. O termo “estranho” refere-se a comportamentos polares, isto é, intensos ou inibidos. São comportamentos desequilibrados que podem surgir no início do ciclo escolar e que vão desaparecendo com o tempo, pois a habilidade de adaptação começa a se fortalecer em qualquer pessoa, ficando “travadas ou paralisadas” em alguns deles.
Na educação primária, o Asperger não diagnosticado torna-se evidente quando a pessoa que o vivencia permanece sozinha no pátio ou persegue seus “amigos” sem seguir as regras implícitas que todos obedecem nesses jogos.
Quanto maior a idade, maior a exigência de adaptação. Quem vive com Asperger pode ter muitas dificuldades durante o ensino médio e na época universitária, e até mesmo no trabalho.
Diante disso, surgem algumas perguntas…

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Como se comportam as pessoas com Asperger?
Quem vive com Asperger geralmente é solitário; torna-se difícil iniciar, manter e concluir espontaneamente uma interação como se esperaria. Sem filtro, comentam às suas professoras “me deixa, não quero, eu não gosto de você”. Se os colegas os convidam para participar do jogo, sem filtro os ignoram, rejeitam e evitam, sendo também provável que passem o tempo todo falando sem perceber que ignoram, rejeitam e evitam devido à persistência no seu tema de conversa, seja sobre dinossauros, marcas de carros, raças de cães, bandeiras de países do mundo ou dados da Segunda Guerra Mundial. Qualquer criança pode se interessar em conhecer a raça do seu animal de estimação, mas apenas na primeira vez que seu colega menciona isso.
O Asperger durante a infância
Os comportamentos das crianças que vivem com Asperger chegam a ser semelhantes entre si. No entanto, a personalidade, o caráter e o estilo são abismalmente diferentes devido ao contexto em que se desenvolvem e às suas próprias capacidades. Assim, uma criança pode alinhar todo tipo de material que tem ao seu alcance sem permitir que outro participe, chegando a ficar irritada se alguém ousa fazê-lo. Sem filtro, segue seu impulso e pega o lanche dos seus colegas, sai da sala sem seguir os acordos para fazê-lo, sai do banheiro com a roupa íntima nos joelhos, repete o tempo todo frases que ouve, entre outras tantas situações que também chamam a atenção pela intensidade e frequência.
Na escola primária, as crianças são mais duras em seus comentários e na forma de relacionar-se. Ao perceber que o colega faz movimentos estranhos com os dedos, não mantém contato visual enquanto fala, não entende as piadas e interrompe a conversa dos outros e, acima de tudo, faz comentários fora de hora o tempo todo como se sua mente funcionasse sem filtro, o classificam como estranho e, aos poucos, o deixam fora do círculo de amigos. Às vezes tentam incluí-lo, mas não sabem como. Ouvir alguém falar sobre Godzilla o tempo todo é absolutamente entediante e exaustivo.
O Asperger durante a adolescência
A adolescência é complicada para quem passa por esse período e para todos ao redor. Para quem vive com Asperger, essa complicação parece se intensificar, pois o aspecto social permeia os demais que compõem o desenvolvimento integral do indivíduo. Sem filtro, escolhe a roupa para participar de um encontro ao qual talvez seja obrigado a ir, obviamente sem se importar com as tendências da moda, se é formal ou não; o essencial é sentir-se confortável, e uma calça de moletom com moletom estará bem; a sensibilidade gustativa o levará a servir no seu prato uma quantidade excessiva de massa sem considerar que há outros participantes, fará comentários infelizes, como o quão horrível o aniversariante está, ou talvez queira ser quem assopra as velas do bolo.
A imaturidade acompanha quem vive com Asperger; há meninas que dormem com bichos de pelúcia e meninos que se identificam e se comportam como personagens de anime. No ensino médio, não se encaixam com seus colegas justamente pelos gostos que, sem filtro, compartilham mesmo sem que lhes peçam. Os jovens usam trocadilhos a maior parte do tempo, ficando em desvantagem por não conseguir decifrá-los, sendo alvo de zombaria e exclusão. Namorar torna-se complicado porque a teoria da mente é um dos grandes desafios para eles, já que lhes é difícil interpretar ou “ler” a linguagem não verbal do parceiro. Como se sabe, 70% da comunicação que mantemos com o interlocutor é corporal, por meio de gestos, ademanes, incluindo momentos de silêncio.
O Asperger no âmbito laboral
O campo de trabalho potencializa as exigências para se relacionar e interagir com o mundo. É comum que adultos jovens com Asperger escolham cursos universitários relacionados às ciências exatas, como física, matemática, etc., nos quais tenham relação mínima com um grupo de pessoas. Quem optar pelas ciências humanas precisará de apoio extra que lhes permita interpretar reações, intenções e ações das pessoas com quem precisarem interagir.
Existem outras dificuldades que raramente são consideradas. Chamam sempre a atenção os comentários que, sem filtro, expressam sobre seus colegas de trabalho ou alguns clientes. Alguns têm a ver com o mau hálito ou o estilo de cabelo, com interromper a história sobre suas últimas férias ou com a resistência em prestar atenção a detalhes da vida pessoal. A dificuldade de aceitar as consequências de suas ações é uma constante, por isso é importante conhecer em profundidade a síndrome de Asperger para que todo aquele que tenha contato com alguém com essa condição encontre maneiras de fazê-lo notar, de forma explícita, o que se espera dele nos diferentes contextos em que se encontra e as possíveis consequências de cada ato que decidir realizar ou não.
A necessidade de usar recursos visuais para regular a conduta das pessoas que vivem com Asperger
Objetos, fotos, desenhos e a escrita têm função simbólica, são uma referência e, portanto, conferem significado. Dessa forma, ao recorrer a fotografias de episódios socialmente aceitáveis e não, ao exibi-los e interpretá-los torna-se explícito o comportamento que se espera em determinada situação. A idade e o nível de abstração de cada pessoa é o que sugere que tipo de material usar. Assim, as funções executivas começam a ser fortalecidas, reduzindo gradualmente as reações sem filtro que são características das pessoas que vivem com Asperger.
Isso significa que devemos mudar a essência da pessoa que vive com Asperger?
Na realidade, não. A qualquer um de nós agradaria que as pessoas com quem nos relacionamos fossem tão sinceras. E que nos dissessem sem filtro se nos amam, se a roupa que vestimos nos favorece, se nossa companhia é agradável ou desconfortável, etc. O que se pretende é amenizar a reação dos outros diante das situações descritas acima e intermediar. Fazer perceber que a diversidade é valiosa e o respeito mais ainda. A empatia e a solidariedade são valores básicos que precisaremos praticar constantemente.
O papel que exercem as funções executivas
As funções executivas nos permitem nos adaptar com sucesso às situações inovadoras, sendo o uso desses recursos um bom caminho; assim, vai-se equilibrando os “sem filtro” que acompanham dia após dia a pessoa que vive com Asperger.
Vamos pensar na vida cotidiana, em que um garoto de 12 anos está na aula; sua professora vai terminar a aula e começa a falar sobre a tarefa: analisar os estilos literários, buscar a história que preferir e redigir uma nova versão de acordo com o estilo que acabamos de abordar. Sua velocidade de processamento depende de algum recurso para que esteja no mesmo ritmo dos demais alunos. Uma agenda é útil, assim poderão antecipar ações e resolver com sucesso a tarefa. Nesse caso, consistiria em ter à mão um gravador portátil que seja acionado no momento adequado para que ele possa repetir a instrução as vezes necessárias. O comentário sem filtro que normalmente expressa nessa situação reduz-se consideravelmente até quase desaparecer. Dessa forma, cada habilidade que compõe as funções executivas pode ser trabalhada.
Conclusões
Existem tantas mentes quantas pessoas no mundo, todas respeitáveis. A mente que age sem filtro, como a das pessoas com Asperger, precisa de apoio para melhorar a qualidade da interação. Existem maneiras e recursos; o que talvez falte é conhecimento e vontade para fazê-lo. O grão de areia para contribuir para que meu filho, aluno, vizinho, colega, professor, parceiro, pai ou chefe desfrute de inclusão social é voluntário. Embora talvez eu seja quem precise reconhecer que falo, opino, julgo e planejo sem filtro ou vivo sem filtro social.
Bibliografia
- Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais Quinta Edição (DSM V) Associação Americana de Psiquiatria.
Classificação Internacional de Doenças para Estatísticas de Mortalidade e Morbidade. Décima primeira revisão. CID–11
Carnero-Pardo, C. Entrevista temática com Javier Tirapu Ustárroz: As funções executivas [online]. Circunvalação do Hipocampo, maio de 2020 [Consulta: 2 de agosto de 2021]. Disponível em: https://www.hipocampo.org/Entrevistas/JavierTirapuUstarroz.asp







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