A neuropsicóloga da Adacebur, Verónica Cerdá, explica neste artigo como realizam a reabilitação e estimulação cognitiva do dano cerebral adquirido (DCA) com NeuronUP.
Dano cerebral adquirido ou sobrevenido
O que é o DCA?
O dano cerebral adquirido (DCA) ou sobrevenido é o resultado de uma lesão súbita no cérebro que produz diversas sequelas de caráter físico, psíquico e sensorial, causando anomalias na percepção sensorial, alterações cognitivas e alterações no plano emocional.
Causas mais comuns do DCA
As causas mais comuns do DCA são os acidentes vasculares cerebrais (AVC ou ictus), traumatismos cranioencefálicos (TCE), tumores cerebrais, as anoxias cerebrais e as infecções cerebrais.
AVC ou ictus
Interrupção, mais ou menos repentina, do fluxo sanguíneo em uma região do cérebro. Isso dá lugar a uma isquemia e a uma perda da função da qual essa área do cérebro afetada é responsável.
TCE
Absorção brusca de grande quantidade de energia cinética. As lesões mais habituais são as contusões por impacto e contragolpe, as contusões pelo atrito com as estruturas ósseas da base do crânio e a lesão axonal difusa. Este tipo de lesões costuma vir acompanhado, nas fases iniciais, pela formação de um edema cerebral e pela consequente perda de consciência ou “estado de coma”. A profundidade da perda de consciência e a duração da mesma são dois dos marcadores principais para estabelecer a severidade do dano cerebral.
Tumor cerebral
Grupo de células anormais que cresce e se multiplica no cérebro ou ao redor dele. Os tumores podem destruir as células saudáveis do cérebro ou danificá-las indiretamente por invadir outras partes do cérebro e causar inflamação, edema cerebral e pressão dentro do crânio. Classificam-se em função do lugar onde se encontram ou dos tipos de células que envolvem. Podem ser benignos ou malignos, dependendo da rapidez de seu crescimento e de se conseguem ressecar-se ou curar-se mediante o tratamento neurocirúrgico (ASATE).
Problemas decorrentes do DCA
Nível de alerta
Através da “escala de coma de Glasgow” mede-se a atividade, a capacidade de manter os olhos abertos de forma espontânea ou perante um estímulo, a capacidade de mover um membro por ordem ou como estimulação do mesmo e a capacidade que o paciente tem para responder verbalmente.
Alguns pacientes, a minoria, não chegam a “acordar” do coma, convertendo-se em permanente (estado vegetativo).
Cognição e comunicação
Alguns destes problemas podem ser transitórios e reversíveis, (amnésia pós-traumática). Outros podem condicionar a autonomia da pessoa de forma permanente.
Em outros casos podem mantê-la intacta, gerando uma falsa impressão de saúde.
Na comunicação podem surgir dificuldades para compreender a linguagem verbal (afasia de predomínio sensitivo) ou ser incapaz de ler (alexia) ou ter dificuldades para emitir uma linguagem compreensível (afasia de predomínio motor)
Outras vezes a pessoa não é capaz de nomear objetos cotidianos (anomía). Os transtornos da linguagem costumam ir acompanhados de problemas de compreensão e de expressão.
São muito habituais os transtornos da articulação da fala, não se encontram os pontos de articulação dos fonemas, pelo que a inteligibilidade do seu discurso pode ficar severamente afetada, disartria. Outras vezes, é a emissão da voz que gera problemas (disfonia) e a pessoa só consegue produzir um pequeno sussurro para comunicar-se.
Controle motor
Pode-se encontrar fraqueza na parte do corpo contrária à do hemisfério cerebral lesionado: hemiplegias (paralisia da metade do corpo) hemiparesias (perda de força e destreza na metade do corpo).
Emoções e personalidade
Costuma produzir-se uma instabilidade das emoções, depressão ou perda de controlo sobre a expressão do choro ou do riso. Em casos de AVC é especialmente frequente o aparecimento de um síndrome depressivo.
Dentro dos transtornos de personalidade o desinibido (incapacidade para travar os impulsos) e o apático (indiferença emocional, falta de motivação e inatividade). Podem aparecer problemas de conduta, como agressividade.
Atividades básicas da vida diária
Podem aparecer dificuldades em atividades comuns que realizamos diariamente (higiene, vestir-se, controlo de esfíncteres, deslocamentos…). As atividades instrumentais têm a ver com o modo como a pessoa se desenrola no meio (uso do transporte público, trâmites bancários, compras, gestões administrativas e desempenho laboral).
Recepção de informação
A capacidade visual pode estar afetada, existindo um transtorno do campo visual (hemianopsia ou quadrantanopsia) ou transtorno da convergência visual (diplopia)
O afetado perde a capacidade de perceber estímulos visuais procedentes da parte do espaço contralateral ao hemisfério onde tem localizada a lesão. Denominam-se hemianopsias quando é metade do campo visual, quando se afeta um quadrante recebem o nome de quadrantanopsias. Nos problemas de convergência o problema mais comum é a visão dupla.
É habitual nos TCE com lesões localizadas na região mais ventral dos lobos frontais que percam o olfato, o que se denomina hiposmia ou anosmia, em função do grau de severidade do sintoma. Frequentemente estas pessoas referem que a comida não tem sabor (ageusia) pela estreita relação do olfato e do paladar.
A audição é afetada fundamentalmente nos TCE que apresentam uma fratura da escama do osso temporal (ouvido interno), responsável pelo sentido da audição. O sentido do equilíbrio também pode ser afetado, pois depende em grande medida de estruturas intimamente relacionadas com o ouvido interno.
O tato é afetado devido a que as lesões que as pessoas afetadas sofrem condicionam frequentemente transtornos da sensibilidade da região contralateral do corpo. Em consequência, apresentam-se dificuldades para identificar a dor, o calor-frio, receber informação da forma dos objetos, da sua textura ou consistência, até pode existir a possibilidade de não sentir determinadas partes do corpo e a sua posição no espaço.
Características das pessoas com DCA
Além do já mencionado, é habitual que as pessoas com DCA tenham uma consciência muito reduzida de suas sequelas e das implicações das mesmas, chegando a assegurar que estão em perfeito estado. Por conseguinte, geram-se tensões no círculo familiar; que tenta proteger a pessoa afetada de iniciativas que podem ser irresponsáveis dada a nova situação. Situações como querer voltar a conduzir ou a trabalhar costumam ser causantes dessas desavenças.
Associação ADACEBUR
ADACEBUR é a Associação de Dano Cerebral Adquirido de Burgos. Nasce em maio de 2006 com a intenção de ajudar as pessoas com um dano cerebral sobrevenido e seus familiares, que após a lesão necessitam de informação e orientação acerca de sua situação, suas possibilidades, os recursos aos quais podem aceder, etc.
Somos uma entidade sem fins lucrativos, formada por pessoas que sofreram um dano cerebral adquirido (DCA), seus familiares e sócios colaboradores que desejam ajudar na associação. Estamos integrados na Federação Espanhola de Dano Cerebral, FEDACE.
Objetivos
- Ajudar o afetado e sua família a melhorar a qualidade de vida e a aceitação da deficiência no núcleo familiar.
- Fomentar a integração social e comunitária dos afetados por DCA.
- Sensibilizar a sociedade e as instituições sobre a realidade das pessoas com dano cerebral adquirido.
- Dar a conhecer à comunidade o que é o DCA, a existência da Associação de Dano Cerebral de Burgos e a problemática derivada do DCA.
- Orientar, informar e aconselhar as famílias e afetados por DCA.
- Promover os serviços sociais adequados para cobrir as necessidades das pessoas com DCA.
- Defender os direitos e interesses dos afetados e seus familiares.
- Apostar por um serviço de reabilitação integral que cubra as necessidades dos afetados por DCA.

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Programas
Informação, orientação e aconselhamento
Dirigido às pessoas afetadas e seus familiares. Com este serviço pretende-se dar resposta às necessidades sociais que apresentam os utentes e suas famílias, mediante a informação e tramitação dos serviços e recursos sociais existentes, para facilitar a integração deste grupo na sociedade.
Reabilitação neuropsicológica
Focalizada em recuperar, na medida do possível, o nível de funcionamento intelectual através de técnicas de intervenção baseadas em exercícios de atenção, memória ou compreensão, para citar os exemplos mais significativos. O neuropsicólogo avalia ao longo do processo de reabilitação as mudanças do paciente nas distintas áreas que intervêm no pensamento.
Terapia ocupacional
Realizam-se atividades individuais, com exercícios de mudança de dominância e treino na melhoria do esquema corporal dos pacientes, através de exercícios de coordenação, habilidade e força.
Também atividades grupais, de estimulação cognitiva e manejo emocional e social. Trabalha-se fomentando a colaboração e interação dos membros do grupo.
Atividades grupais e individuais de treino em ajudas técnicas e de realização de AVD, para promover a autonomia pessoal dos afetados.
Fonoaudiologia
O profissional encarrega-se de explorar, avaliar e diagnosticar os transtornos da comunicação e da linguagem e estabelecer um prognóstico de evolução. A avaliação da linguagem realiza-se desde os seguintes níveis: fonológico, léxico, morfológico, sintático, semântico, pragmático e compreensivo. Também se realiza exame da deglutição, pois, no CCL, encontramos frequentemente alterada esta função.
Fisioterapia
Sessões ao domicílio ou no centro. A reabilitação funcional desenvolve um conjunto de técnicas de fisioterapia individualizadas e adaptadas às características e circunstâncias especiais de cada pessoa. Inclui todo um leque de atividades terapêuticas dirigidas a potenciar a autonomia funcional dos pacientes com CCL e a melhorar sua condição física.
Sensibilização comunitária
Realizam-se, através da Adacebur, campanhas de sensibilização dirigidas à população em geral. CCL e prevenção viária. São realizadas palestras informativas em centros socioculturais, centros escolares e universidade.
Outros eventos
Visitas a exposições, participação em atividades desportivas, de lazer e tempo livre, jornadas de formação sobre CCL.
Metodologia
Na nossa associação oferece-se o serviço de neuropsicologia desde 2006, já que muitos dos afetados por danos cerebrais adquiridos têm necessidade de trabalhar distintas áreas cognitivas.
Normalmente, quando uma pessoa chega à associação realiza-se uma avaliação neuropsicológica para comprovar a afetação do paciente e o grau da mesma (a não ser que já a tenham feito porque venham referidos de outro centro); a partir da qual se elabora um relatório para o paciente com recomendações e propostas de trabalho, com toda a equipa multidisciplinar, em função das suas necessidades. A avaliação pode voltar a realizar‑se ao longo do tempo, devido à necessidade de a apresentar em algum processo judicial ou em trâmite de incapacidade laboral; também se pode realizar passados pelo menos seis meses para ver se há melhoria ou evolução nas funções cognitivas que se estejam a trabalhar desde as sessões de reabilitação.
Profissionais
Contamos com uma equipe de profissionais multidisciplinar para dar resposta às necessidades de cada paciente, pois não há dois pacientes iguais.
- Educadora/trabalhadora social
- Neuropsicóloga/psicóloga
- Equipe de terapeutas ocupacionais
- Fisioterapeutas
- Fonoaudiólogo
Realizamos reuniões periódicas para coordenar a reabilitação de cada paciente e comprovar se há avanços ou se é necessário modificar algum aspeto ou terapia em cada caso concreto.
Nossa experiência com NeuronUP em CCL
Durante a pandemia que vivemos viu‑se a necessidade de oferecer oportunidades de reabilitação neurocognitiva a distância às pessoas utentes da associação, já que com essa situação muitas delas tiveram afetado o seu processo de reabilitação e, por consequência, seu progresso e melhoria. Muitos dos utentes tiveram de paralisar todas as terapias que vinham realizando anteriormente, vendo minguadas certas capacidades e habilidades que já haviam melhorado. Por tudo isso, ponderou‑se a possibilidade de adquirir a plataforma NeuronUP e o fizemos através de uma subvenção que nos foi concedida em março deste ano. Desde então estamos a utilizar o NeuronUP com os nossos utentes.
¿Qué trabajamos con NeuronUP?
Utilizamos habitualmente o programa do NeuronUP tanto para as sessões individuais de reabilitação cognitiva como para as sessões grupais de estimulação cognitiva, ambas de forma presencial.
Recentemente começamos a utilizar as sessões do NeuronUP2GO, com algum paciente em concreto, para que trabalhe de casa, reforçando o que vemos na sessão de reabilitação e promovendo uma maior autonomia da pessoa.
Graças ao NeuronUP podemos agilizar de certa forma a preparação de algumas sessões para pacientes, mas merece especial importância a possibilidade de ter um registo dos pacientes e das atividades que foram realizando, já que se pode selecionar a área de trabalho que se quer tratar.
Por outro lado, com as sessões do NeuronUP2GO temos a vantagem de poder ver a informação dos resultados do paciente nas atividades programadas digitalmente para casa.
Nas sessões grupais projeta‑se a tela e cada utente deve realizar a atividade, às vezes de forma individual, para que todos possam chegar à solução, e outras vezes realiza‑se de forma conjunta.
Além disso, em qualquer das modalidades com que trabalhamos na associação utilizam‑se fichas, geradores e jogos da plataforma NeuronUP.

Desejo futuro
Nosso desejo para o futuro próximo é poder continuar a empregar a plataforma NeuronUP com os nossos pacientes e ver resultados a médio e longo prazo. Além disso, gostaríamos que cada vez mais participantes fizessem uso do NeuronUP2GO desde os seus domicílios e vissem reforçados os seus esforços.
Outra boa experiência poderia ser partilhar com outras associações a sua experiência direta com o uso da plataforma.
Conclusão
Apesar de o nosso trabalho com NeuronUP ser muito recente, podemos apreciar o interesse que desperta em muitos dos nossos pacientes e os benefícios que, a nível cognitivo, pode oferecer aos utentes. Além disso, valorizamos as facilidades que apresenta aos profissionais na hora de planificar as sessões de trabalho.







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