O acidente vascular cerebral (AVC) se tornou uma verdadeira pandemia. Os números sugerem que é uma das principais causas de morte em nível mundial e a maior causa de deficiência na população adulta. O presente artigo tem como objetivo fornecer informações sobre o que é um AVC, que tipos de AVC existem e quais são suas possíveis sequelas.
O que é um acidente vascular cerebral ou AVC?
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, um acidente vascular cerebral (AVC), também chamado de ictus, é a interrupção do fluxo sanguíneo no cérebro. Normalmente é causado pela ruptura ou obstrução de um vaso que interrompe o fornecimento de oxigênio e nutrientes, produzindo um dano cerebral que, de forma transitória ou definitiva, altera o funcionamento de uma ou várias áreas do encéfalo.
Nos últimos anos aumentou sua prevalência de mortalidade, entretanto, a deficiência gerada é maior que as mortes provocadas por esta entidade. Uma alta percentagem desses casos é prevenível, com intervenção precoce sobre os fatores de risco modificáveis. Alguns dos fatores de risco são: a idade, hipertensión arterial (HTA), diabetes mellitus (DM), obesidade, acidentes isquêmicos transitórios (ATI) e sedentarismo. Dentro destes, a idade constitui o fator de risco mais frequente, sendo os
Nesse sentido, existe um grupo de pessoas com especial predisposição a desenvolver essa doença cardiovascular. Por isso, o autocuidado, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem ajudar a evitar o ictus e/ou reduzir o dano ocasionado pela lesão.
Tipos de acidente vascular cerebral
Os AVC podem ser divididos em dois grandes tipos, de acordo com a natureza da lesão encefálica:
- Isquêmicos: ocorrem quando uma artéria se obstrui e, portanto, não chega sangue a uma área do cérebro. Trata-se da causa mais frequente, sobretudo na população de idade avançada. As artérias se bloqueiam ou se estreitam devido ao acúmulo de coágulos sanguíneos, depósitos de gordura ou outros detritos que viajam pelo fluxo sanguíneo e se alojam nos vasos sanguíneos do cérebro. Dependendo de sua evolução nas primeiras horas pode-se distinguir se se trata de um accidente isquémico transitorio (AIT) ou um infarto cerebral. O primeiro é aquele que não produz danos permanentes, enquanto o segundo tem maior duração no tempo e causa um dano permanente.
- Hemorrágicos: ocorrem pela ruptura de um vaso sanguíneo no cérebro, o que provoca um acúmulo de líquido hemático que danifica a área do encéfalo onde ocorre. Trata-se do AVC mais frequente na população jovem. Também podem encontrar-se dois subtipos, a hemorragia intracerebral e a subaracnoidea. A intracerebral, geralmente associada à hipertensão, é responsável por 80% dos ictus hemorrágicos. A subaracnoidea é causada habitualmente por um aneurisma, trata-se de um ictus muito menos frequente, associando-se a maioria das vezes a malformações do tecido vascular

De acordo com a Federação Argentina de Cardiologia, as estatísticas sugerem que em nosso país predominam os eventos isquêmicos, representando aproximadamente 85% dos casos, enquanto os hemorrágicos constituem aproximadamente 15%.
Como mencionado anteriormente, um acidente vascular cerebral pode causar deficiências temporárias ou permanentes, o que depende, por um lado, de quanto tempo o cérebro fica privado do fluxo sanguíneo, e por outro, da área encefálica afetada.
Consequências ou sequelas do acidente vascular cerebral
Uma das possíveis complicações de sofrer um AVC é a hemiplegia ou perda do movimento muscular. Nesses casos, a pessoa experimentará a paralisia de um lado do corpo, ou pode perder o controle de certos músculos. Nesse sentido, também pode ser afetada a capacidade de deglutir, na medida em que esteja comprometido o controle dos músculos específicos da boca e garganta. Por sua vez, isso pode ocasionar dificuldade para falar.
Sequelas cognitivas do AVC
A nível cognitivo, pode aparecer uma dificuldade na linguagem, afasia, déficit para comunicar-se por meio das palavras, mímica ou escrita. Assim como, perda de memória, agnosia, apraxia, dificuldades na capacidade de raciocinar, emitir opiniões e/ou compreender conceitos. Costumam surgir mudanças no comportamento habitual, problemas para realizar tarefas de cuidado pessoal (Aguilar-Palomino, Olivera-Pueyo, Benabarre-Ciria, & Pelegrín-Valero, 2009). As pessoas podem tornar-se mais retraídas, dependentes, necessitando de ajuda extra para manter a higiene pessoal e do domicílio. Surge um déficit na realização de tarefas básicas e atividades da vida diária.
Pode afirmar-se que ocorre um deterioro que afeta principalmente a atenção, as funções executivas superiores, e o aparecimento de manifestações neuropsiquiátricas como depressão, síndromes confusionais, ansiedade, quadros de excitação psicomotora, sintomas psicóticos e/ou transtornos do sono. Devido a que o sintoma primordial produzido a nível neurocognitivo após um AVC não é um déficit na memória, tem-se questionado o termo “demência vascular” e propôs-se englobar essas sequelas sob o conceito de “deterioro cognitivo vascular” (Luna-Matos, Mcgrath, & Gaviria, 2007).

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Complicações afetivo-cognitivas
Dentre as possíveis complicações da esfera afetivo-cognitiva, é de destacar o papel central que a depressão, denominada depressão pós ictus (DPI), terá na evolução desses pacientes. Trata-se da apresentação de sintomas muito semelhantes à depressão sem doença neurológica associada, embora com algumas diferenças. Surgem com maior frequência transtornos do sono, sintomas de tipo vegetativo e introversão nas relações sociais. Apesar de sua elevada prevalência é subdiagnosticada, o que repercute negativamente na qualidade de vida dos pacientes.
Se não forem tratados, os problemas emocionais como a depressão, em pessoas que tiveram acidentes cerebrovasculares, têm pior prognóstico de recuperação do funcionamento diário e capacidade cognitiva (Carnés-Vendrell, Deus-Yela, Molina-Seguin, Pifarré-Paredero & Purroy, 2016) . Daí a importância de prestar muita atenção a esses sintomas.
Depressão Pós AVC
Atualmente existe um debate em relação à origem da depressão que ocorre após um AVC. Alguns autores propõem que os sintomas do estado de ânimo são produto da localização da lesão provocada pela patologia orgânica de base. Outros sugerem que, na realidade, o quadro depressivo surge como consequência psicológica do deterioro funcional e social que a pessoa experimenta pelas sequelas a nível neuronal. De modo que o decremento do nível de funcionamento é considerado um fator preditivo da depressão pós AVC. Não se deve perder de vista que os sintomas depressivos por sua vez influenciam na capacidade de recuperação funcional (Aguilar-Palomino, Olivera-Pueyo, Benabarre-Ciria & Pelegrín-Valero, 2009). Uma terceira vertente a ter em conta relaciona-se com os fatores de risco cerebrovascular. Considerou-se que estes podem gerar certa predisposição ao aparecimento do transtorno do estado de ânimo.

Em relação ao seu tratamento, encontrou-se evidência que demonstra que o tratamento psicofarmacológico, juntamente com a terapia neurocognitiva, constituem a terapêutica com maiores benefícios para esse tipo de pacientes. Comprovou-se a eficácia dos antidepressivos em pessoas com sintomatologia após um AVC, obtendo melhores resultados do que em pacientes que iniciam o tratamento em etapas posteriores. Os ISRS são os fármacos de primeira linha, não tendo sido encontrada evidência que sugira a superioridade de um tipo específico sobre outro do mesmo grupo. O manejo farmacológico permite abrir o caminho para a estimulação cognitiva para a recuperação, parcial ou total, das funções deterioradas pela lesão cerebral.
Conclusão
Enfatizando a prevalência do AVC a nível mundial e suas possíveis sequelas, sejam elas temporárias ou definitivas, fica evidente a necessidade de prevenir sua ocorrência, diminuindo os fatores de risco, mas também a importância de buscar tratamento nas primeiras etapas de aparecimento de sintomas após a lesão.
Atender às diversas manifestações a partir de uma abordagem integral que combine medicação e psicoterapia pode influenciar positivamente a recuperação de cada pessoa afetada por essa doença cardiovascular. A reabilitação neurocognitiva permite a recuperação total ou parcial das funções afetadas, melhorando notavelmente sua qualidade de vida e a de sua família.
Bibliografia
- Aguilar-Palomino, H., Olivera-Pueyo, J., Benabarre-Ciria, S., & Pelegrín-Valero, C. (2009) Psicopatologia do acidente vascular cerebral: o estado da questão. Psicogeriatría, 1, 23-35.
- Carnés-Vendrell, A., Deus-Yela, J., Molina-Seguin, J., Pifarrré-Paredero, J., & Purroy, F. (2016) Atualización da depressão pós-AVC: novos desafios em pacientes com AVC menor ou ataque isquêmico transitório. Revista Neurol, 62, 460-7.
- Díaz Alfonso, H., Sparis Tejido, M., Carbó Rodríguez, H. L., & Díaz Ortiz, B. (2015) AVC isquêmico em pacientes hospitalizados com 50 años o más. Rev. Ciencias Médicas, 19 (6), 1063-1074
- Espárrago Llorca, G., Castilla-Guerra, L., Fernández Moreno, M.C., Ruiz Doblado, S., Jiménez Hernández, M.D. (2015) Depressão pós-AVC: uma atualização. Science DIrecte, 30 (1), 23-31.
- Luna-Matos, M., Mcgrath, H. & Gaviria, M. (2007). Manifestações neuropsiquiátricas em acidentes cerebrovasculares. Revista chilena de neuro-psiquiatría, 45(2), 129-140.








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