O doutor em Psicologia Carlos Rebolleda apresenta a avaliação da percepção social e do conhecimento social na esquizofrenia.
Definição de percepção social na esquizofrenia
O termo percepção social refere-se à capacidade do indivíduo de identificar papéis sociais, regras sociais e contextos sociais (Green e Horan, 2010). Refere-se a processos perceptivos relacionados à habilidade do sujeito de direcionar sua atenção àquelas pistas-chave que podem ajudá-lo a interpretar adequadamente as diferentes situações sociais nas quais esteja envolvido.
Fases
Ela envolve duas fases: a primeira baseia-se na categorização do comportamento percebido; a segunda está relacionada à valoração de se tal comportamento se deve a estados estáveis ou fatores contextuais, sendo essa fase a que impõe maior custo ao sujeito, pois requer uma avaliação atributiva (Bellack, Blanchard e Mueser, 1996; Newman e Uleman, 1993).
Conhecimento social
A percepção social geralmente está associada a outro domínio da cognição social que é denominado conhecimento social ou esquema social, considerado como a capacidade de identificar os diversos componentes que podem constituir uma situação social (Corrigan e Green, 1993; Green et al., 2005).
Para que o sujeito possa identificar corretamente os sinais sociais de um determinado contexto, é imprescindível que ele tenha conhecimento sobre o que é habitual nessa situação. Portanto, o conhecimento social é a capacidade que permite ao indivíduo se orientar em uma situação social, guiando-o em relação ao papel que ocupa, às regras que deve seguir, aos motivos pelos quais está nessa situação e ao comportamento que deve adotar nela.
Avaliação da percepção social na esquizofrenia
Alguns testes têm como objetivo medir a percepção social e outros o conhecimento social. Os testes que têm sido habitualmente utilizados para avaliar esses componentes são os seguintes:
Teste de Reconhecimento de Indicações Sociais (Social Cues Recognition Test, SCRT) (Corrigan e Green, 1993)
Projetado para medir a percepção social. Consiste em oito situações de dois a três minutos, apresentadas ao sujeito em vídeo, em que aparecem duas ou três pessoas conversando entre si. Após a visualização de cada situação, deve-se responder a um questionário composto por 36 perguntas de verdadeiro ou falso sobre a presença de indicações sociais concretas e abstratas.
Videotape Affect Perception Test (VAPT) (Bellack et al., 1996)
Mede percepção social. Nele são apresentadas aos sujeitos 30 cenas de filmes e programas de televisão nas quais ocorre uma breve interação entre duas pessoas, uma das quais apresenta respostas afetivas que podem variar de muito agradáveis a muito desagradáveis. Após cada uma dessas cenas, deve-se avaliar a agradabilidade-desagradabilidade e a ativação-sonolência em uma escala de nove pontos. Finalmente, pede-se que se avalie a cena escolhendo qual seria a emoção básica que mais se adequa à mesma.
The Half-Profile of Nonverbal Sensitivity (PONS) (Ambady, Hallahan e Rosenthal, 1995; Rosenthal et al., 1979):
Instrumento projetado para medir a percepção social. É composto por 110 cenas gravadas em vídeo que contêm expressões faciais, entonações e gestos realizados por uma mulher. Após a visualização de cada cena, são apresentadas ao sujeito duas possíveis opções de resposta e ele deve escolher qual das duas descreve melhor a situação exposta.
Relationships Across Domains (RAD) (Sergi et al., 2009):
Avalia a percepção social. É um teste de 75 itens concebido para medir a competência do sujeito em perceber sinais sociais discretos, como a postura ou os gestos das mãos. São apresentadas, sob a forma de vinhetas, 25 interações sociais realizadas entre um homem e uma mulher. Após a apresentação de cada vinheta, são feitas três perguntas sobre comportamentos possíveis que os personagens poderiam executar, devendo-se inferir se eles realizariam essas condutas.
Schema Comprension Sequencing Test-Revised (SCRT-R) (Corrigan e Addis, 1995): Criado para medir o conhecimento social.
É constituído por 12 cartões que, por sua vez, descrevem diferentes situações sociais (por exemplo: ir ao cinema, ir às compras). Na aplicação desse teste, manipulam-se duas variáveis: a primeira é a extensão da sequência apresentada, que pode ser curta ou longa; a segunda é a informação contextual fornecida previamente ao sujeito, pois alguns cartões são titulados e outros não. O tempo que o sujeito leva para completar a tarefa e o número de ações corretas consecutivas são os fatores considerados para avaliar o desempenho.
Teste de Reconhecimento de Características Situacionais (Situational Features Recognition Test, SFRT) (Corrigan e Green, 1993; Corrigan, Buicam e Toomey, 1996):
Mede conhecimento social. É um teste de papel e lápis no qual se pede aos participantes que identifiquem características de uma lista composta por cinco situações que podem ser familiares ao sujeito (por exemplo, ler em uma biblioteca) e outras quatro que dificilmente lhe seriam conhecidas (por exemplo, construir um iglu). A lista a ser completada inclui seis características e oito elementos distratores que, por sua vez, correspondem a ações, papéis, regras e objetivos relacionados a cada uma das situações apresentadas.

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Déficits na esquizofrenia
Ruiz et al. (2006) referem que, dentro das duas fases que compõem a percepção social, os pacientes diagnosticados com esquizofrenia apresentam os maiores déficits na fase que tem a função de decidir se o comportamento se deve a estados estáveis ou a fatores situacionais, devido à dificuldade em modificar as primeiras impressões.
Várias pesquisas demonstraram que a capacidade desses pacientes de usar informações contextuais é deficiente (Penn et al., 2002), chegando a gastar mais tempo nas características menos relevantes (Phillips e David, 1998) e apresentando déficits significativos ao captar informações abstratas ou que não lhes sejam familiares (Nuechterlein e Dawson, 1984). Todos esses aspectos contribuem para uma percepção deficiente de estímulos sociais relevantes.
Bibliografia
- Ambady, N., Hallahan, M. e Rosenthal, R. (1995). On judging and being judged accurately in zero-acquaintance situations. Journal of Personality and Social Psychology, 69(3), 518-529.
- Bellack, A. S., Blanchard, J. J. e Mueser, K. T. (1996). Cue availability and affect perception in schizophrenia. Schizophrenia Bulletin, 22(3), 535-544.
- Corrigan, P. W. e Addis, I. B. (1995). The effects of cognitive complexity on a social sequencing task in schizophrenia. Schizophrenia Research, 16(2), 137-144.
- Corrigan, P. W., Buicam, B. e Toomey, R. (1996). Construct validity of two test of social cognition in schizophrenia. Psychiatry Research, 63(1), 77-82.
- Corrigan, P. W. e Green, M. F. (1993). Schizophrenic patient’s sensivity to social cues: the role of abstraction. American Journal of Psychiatry, 150(4), 589-594.
- Green, M. F. e Horan, W. P. (2010). Social cognition in schizophrenia. Current Directions in Psychological Science, 19(4), 243-248.
- Green, M. F., Olivier, B., Crawley, J. N., Penn, D. L. e Silverstein, S. (2005). Social cognition in schizophrenia: recommendations from the measurement and treatment research to improve cognition in schizophrenia new approaches conference. Schizophrenia Bulletin, 31(4), 882-887.
- Newman, L. S. e Uleman, J. S. (1993). When are you what you did? Behavior identification and dispositional inference in person memory, attribution, and social judgment. Personality and Social Psychology Bulletin, 19(5), 513-525.
- Nuechterlein, K. H. e Dawson, M. E. (1984). Information processing and attentional functioning in the developmental course of schizophrenics disorders. Schizophrenia Bulletin, 10(2), 160-203.
- Penn, D. L., Ritchie, M., Francis, J., Combs, D. e Martin, J. (2002). Social perception in schizophrenia: the role of the context. Psychiatry Research, 109(2), 149-159.
- Phillips, M. L. e David, A. S. (1998). Abnormal visual scan paths: a psychological marker of delusions in schizophrenia. Schizophrenia Research, 29(3), 235-245.
- Rosenthal, R., Hall, J. A., DiMatteo, M. R., Rogers, P. L. e Archer, D. (1979). Sensitivity to nonverbal communication: the PONS test. Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press.
- Ruiz, J. C., García, S. e Fuentes, I. (2006). La relevancia de la cognición social en la esquizofrenia. Apuntes de Psicología, 24(1-3), 137-155.
- Sergi, M. J., Fiske, A. P., Horan, W. P., Kern, R. S., Kee, K. S., Subotnik, K. L. e Green, M. F. (2009). Development of a measure of relationship perception in schizophrenia. Psychiatry Research, 166(1), 54-62.









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